—Ah! disse Helena sorrindo e caminhando para elle.
Estacio dera egualmente alguns passos.
—Espero merecer sua affeição, disse ella depois de curta pausa. Peço desculpa da demora; estavam á minha espera, creio eu.
—Iamos para a meza agora mesmo, interrompeu D. Ursula como protestando contra a ideia de que ella os fizesse esperar.
Estacio procurou corrigir a rudez da tia.
—Tinhamos ouvido o seu passe na escada, disse elle. Sentemo-nos, que o almoço esfria.
D. Ursula ja estava sentada á cabeceira da mesa; Helena ficou á direita, na cadeira que Estacio lhe indicou; este tomou logar do lado opposto. O almoço correu silencioso e desconsolado; raros monosyllabos, alguns gestos de assentimento ou recusa, tal foi o dispendio da conversa entre os tres parentes. A situação não era commoda nem vulgar. Helena, posto forcejasse por estar senhora de si, não conseguia vencer de todo o natural acanhamento da occasião. Mas, se o não vencia de todo, podiam ver-se atravez delle certos signaes de educação fina. Estacio examinou aos poucos a figura da irmã.
Era uma moça de dezeseis a dezesete annos, delgada sem magreza, estatura um pouco acima de mediana, talhe elegante e attitudes modestas. A face, de um moreno-pecego, tinha a mesma imperceptivel penugem da fructa de que tirava a côr; naquella occasião tingiam-na uns longes côr de rosa, a principio mais rubros, natural effeito do abalo. As linhas puras e severas do rosto parecia que as traçára a arte religiosa. Se os cabellos, castanhos como os olhos, em vez de dispostos em duas grossas tranças, lhe cahissem espalhadamente sôbre os hombros, e se os proprios olhos alçassem as pupillas ao ceu, dissereis um daquelles anjos adolescentes que traziam a Israel as mensagens do Senhor. Não exigiria a arte maior correcção e harmonia de feições, e a sociedade bem podia contentar-se com a polidez de maneiras e a gravidade do aspeto. Uma só cousa pareceu menos aprazivel ao irmão: eram os olhos, ou antes o olhar, cuja expressão de curiosidade sonsa e suspeitosa reserva foi o unico senão que lhe achou, e não era pequeno.
Acabado o almôço, trocadas algumas palavras, poucas e sôltas, Helena retirou-se ao seu quarto, onde durante tres dias passou quasi todas as horas, a ler meia duzia de livros que trouxe comsigo, a escrever cartas, a olhar pasmada para o ar, ou encostada ao peitoril de uma das janellas. Alguma vez desceu a jantar com os olhos vermelhos e a fronte pezarosa, apenas com um sorriso pallido e fugitivo nos labios. Uma creança, subitamente transferida ao collegio, não desfolha mais tristemente as primeiras saudades da casa de seus paes. Mas a aza do tempo leva tudo; e ao cabo de tres dias, ja a physionomia de Helena trazia menos sombrio aspecto. O olhar perdeu a expressão que primeiro lhe achou o irmão, para tornar-se o que era naturalmente, mavioso e repousado. A palavra sahia-lhe mais facil, seguida e numerosa; a familiaridade tomou o lugar do acanhamento.
No quarto dia, acabado o almôço, Estacio encetou uma conversa geral, que não passou de um simples duo, por que D. Ursula contava os fios da toalha ou brincava com as pontas do fichu que trazia ao pescoço. Como falassem da casa, Estacio disse á irmã: