—Ésta casa é tão sua como nossa; faça de conta que nascemos debaixo do mesmo tecto. Minha tia lhe dirá o sentimento que nos anima a seu respeito; não o póde haver mais cordial.

Helena agradeceu com um olhar longo e profundo. E dizendo que a casa e a chacara lhe pareciam bonitas e bem dispostas, pediu a D. Ursula que lh'as fôsse mostrar mais detidamente. A tia fechou o rosto e seccamente respondeu:

—Agora não, menina; tenho por hábito descançar e ler.

—Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a moça com graça; não é bom cançar os seus olhos; e, além disso, é justo que me acostume a servil-a. Não acha? continuou ella voltando-se para Estacio.

—É nossa tia, respondeu o moço.

—Oh! ainda não é minha tia! interrompeu Helena. Hade sel-o quando me conhecer de todo. Por emquanto somos extranhas uma á outra; mas nenhuma de nós é ma; o coração e a convivencia apertarão de vez os laços que a natureza atou frouxamente.

Éstas palavras foram ditas em tom de graciosa submissão. A voz com que ella as proferiu era clara, doce, melodiosa; melhor do que isso, tinha um mysterioso encanto, a que a propria D. Ursula não pôde resistir.

—Pois deixe que a convivencia faça falar o coração, respondeu a irmã do conselheiro em tom brando. Não aceito o offerecimento da leitura, por que não entendo bem o que os outros me lêm; tenho os olhos mais intelligentes que os ouvidos. Entretanto, se quer ver a casa e a chacara, seu irmão póde conduzi-la.

Estacio declarou-se prompto para acompanhar a irmã. Helena, entretanto, recusou. Irmão embora, era a primeira vez que o via, e ao que parece, a primeira que podia achar-se a sos com um homem que não seu pae. D. Ursula, talvez porque preferisse ficar só algum tempo, disse-lhe seccamente que fôsse. Helena acompanhou o irmão. Percorreram parte da casa, ouvindo a moça as explicações que lhe dava Estacio e inquirindo de tudo com zêlo e curiosidade de dona da casa. Quando chegaram á porta do gabinete do conselheiro, Estacio parou.

—Vamos entrar num logar triste para mim, disse elle.