—Que é?
—O gabinete de meu pae.
—Oh! deixe ver!
Entraram os dous. Tudo estava do mesmo modo que no dia em que o conselheiro fallecêra. Estacio deu algumas indicações relativas ao theor da vida doméstica de seu pae; mostrou-lhe a cadeira em que elle costumava ler, de tarde e de manhã; os retratos de familia, a secretária, as estantes; falou de quanto podia interessal-a. Sobre a mesa, perto da janella, estava ainda o último livro que o conselheiro lêra: eram as Maximas do marquez de Maricá. Helena pegou nelle e imprimiu um beijo na página aberta. Uma lagryma brotou-lhe dos olhos, como pingo do sereno que cahisse da aza da noite, não fria como elle, mas quente de todo o calor de uma alma apaixonada e sensivel; brotou, deslizou-se e foi cahir no papel.
—Coitado! murmurou ella.
Depois sentou-se na mesma cadeira em que o conselheiro costumava dormir alguns minutos depois do jantar, e olhou para fóra. O dia começava a aquecer. O arvoredo dos morros fronteiros estava coberto de flores de quaresma, com suas petalas roxas e tristemente bellas. O expectaculo ia com a situação de ambos. Estacio deixou-se levar ao sabor de suas recordações da meninice. De envolta com ellas, veiu pousar-lhe ao lado a figura de sua mãe; tornou a ve-la, tal qual se lhe fôra dos braços, uma crua noite de Outubro, quando elle contava dezoito annos de edade. A boa senhora morrêra quasi moça,—ainda bella, pelo menos,—daquella belleza sem outono, cuja primavera tem duas estações.
Helena ergueu-se.
—Amava-o muito? perguntou ella,
—Quem o não amaria?
—Tem razão. Era uma alma grande e nobre; ou adorava-o. Reconheceu-me; deu-me familia e futuro; levantou-me aos olhos de todos e aos meus proprios. O resto depende de mim, do juizo que eu tiver,—ou talvez da fortuna.