—Imprudente! murmurou Melchior.
Helena sorriu, um sorriso pallido e tão passageiro como a côr que lhe tingira o rosto, D. Ursula dispoz-se a ir chamar Estacio, que estava no andar de cima. Apenas a viu sahir, Helena segurou em uma das mãos do padre.
—Queria vel-o! disse ella. Não tenho ânimo de falar a ninguem mais, de dizer tudo...
—É inutil; tudo sei, interrompeu Melchior sorrindo. O Vicente foi hoje de manhã á minha casa; foi de movimento proprio; relatou-me quanto sabia; disse-me que esse homem é seu irmão; que a senhora o ia ver, a occultas, não podendo ou não querendo apresental-o em casa de seus parentes. O escrupulo era excessivo, e o acto leviano. Porque motivo dar apparencia incorrecta a um sentimento natural? Teria poupado muita afflicção e muita lagryma a si e aos seus, se tomasse antes o caminho direito, que é sempre o melhor.
Helena ouvia éstas palavras do padre com a alma debruçada dos olhos. Não parecia sequer respirar. Quando elle acabou, perguntou soffrega:
—Com que intento lhe falou elle?
—Com o mais puro do todos; desconfiou que a senhora padecia por isso e veiu contar-me tudo.
Helena cruzou os dedos e ergueu os olhos. Melchior não a quiz interromper nessa ascenção mental ao ceu; limitou-se a contemplal-a. A belleza de Helena nunca lhe parecêra mais tocante do que nessa attitude implorativa. A contemplação não durou muito, por que a oração foi breve.
—Orei a Deus,—disse ella, descendo as mãos,—por que infundiu ahi no corpo vil do escravo tão nobre espirito do dedicação. Delatou-me para restituir-me a estima da familia. Aquillo que ninguem lhe arrancaria do coração, tirou-o elle mesmo no dia em que viu em perigo o meu nome e a paz de meu espirito. Infelizmente, mentiu.
Melchior empallideceu.