—Mentiu sem o saber, continuou a moça. Disse o que suppunha ser verdade,—o que eu lhe dei como tal. Não é meu irmão esse homem.

Melchior inclinou-se para a moça e pegando-lhe nos pulsos, disse imperiosamente.

—Então quem é? Seu silêncio é uma delação; não tem ja direito de hesitar.

—Não hesito, replicou Helena; em taes situações uma creatura, como eu, caminha direito a um rochedo ou a um abysmo; despedaça-se ou some-se. Não ha escolha. Este papel,—continuou, tirando da algibeira uma carta,—este papel lhe dira tudo; leia e refira tudo a Estacio e a D. Ursula. Não tenho ânimo de os encarar nesta occasião.

Melchior, atordoado, fez um leve signal de cabeça.

—Lido esse papel,—estão rotos os vínculos que me prendem a ésta casa. A culpa do que me acontece não é minha, é de outros; aceitarei contudo ás consequencias. Poderei contar ao menos com a sua benção?

A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte, beijo de absolvição ou de clemencia, que ella lhe pagou com muitos na dextra enrugada e trémula de commoção. Helena precipitou-se depois para o corredor, deixando o padre só, com a carta nas mãos, sem ousar abril-a, receioso dos males que iam dalli sahir, sem certeza ao menos de que ficaria no fundo a esperança. Ia abril-a, e hesitou se o devia fazer na ausencia de Estacio e D. Ursula; venceu o escrupulo e leu.

D. Ursula, que entrou na occasião em que elle fechava a carta, recuou aterrada. Melchior estava pallido como um defuncto. Antes que nenhum, delles falasse, entrou Estacio na saleta. Melchior dirigiu-se a elle e entregou a carta. Leu-a Estacio e dizia assim:

«Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma cousa ahi ha que te afflige. Presumo adivinhar o que é. O Estacio esteve commigo, logo depois que daqui sahiste a ultima vez. Entrou desconfiado, e deu como razão ou pretexto a necessidade de curar algumas feridas feitas na mão. Talvez elle proprio as fizesse para entrar aqui em casa. Interrogou-me; respondi conforme pedia o caso. Suppondo que elle soubesse de tuas visitas, não lhe occultei a minha pobreza; era o meio de attribuil-as a um sentimento de caridade. A virtude serviu assim de capa a impulsos da natureza. Não é isso em grande parte o theor da vida humana? Fiquei, entretanto, inquieto; talvez lhe não arrancasse o espinho do coração. Pelo que me disse o Vicente receio que assim acontecesse. Conta-me o que ha, pobre filha do coração; não me escondas nada. Em todo o caso, procede com cautella. Não provoques nenhum rompimento. Se fôr preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou mezes. Contentar-me-ha a ideia de saber que vives em paz e feliz. Abençoo-te, Helena, com quanta effusão pode haver no peito do mais venturoso dos paes, a quem a fortuna, tirando tudo, não tirou o gôsto de se sentir amado por ti. Adeus. Escreve-me.—Salvador

P.S. Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, não faças nada; não saias dahi; seria um escandalo.»