Estacio não comprehendeu desde logo o que acabava de ler. A verdade parecia inverossimil. Seu primeiro movimento foi sahir dalli e ter com Helena. Melchior deteve-o a tempo.

—Não precipitemos nada, disse elle. Socegue primeiro.

Estacio deixou-se cahir n'uma cadeira; Melchior communicou o conteudo da carta a D. Ursula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ella não soltou uma palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel. Houve então entre aquelles tres personagens dez minutos de mortal silêncio. D. Ursula não pensava; olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma conclusão que seu proprio espirito não podia deduzir dos acontecimentos. Estacio ficára desorientado; em vão procurava um fio de deducção entre suas ideias; a revellação nova era uma complicação mais. Se a carta era sincera, como explicar a declaração testamentária de seu pae? Se o não era, como explicar a audacia de semelhante invenção? Elle não podia discernir o que era favoravel a Helena, nem ousava affirmar o que lhe era adverso.

No meio daquella familia, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a superioridade da morte sobre alguns lances terriveis da vida. Se o obito de Helena tomára o logar da carta, a dor seria violenta; mas o irremediavel desfecho e o consolo da religião teriam contribuido para sarar a alma dos que ficassem e converter o desespêro de alguns dias na saudade da vida inteira. Em vez disto, estava elle talvez diante de um destino aniquillado; via um abysmo possivel entre corações que a vontade de um morto vinculára. Qualquer que fôsse a veracidade da carta, o resultado era talvez esse.

Melchior foi dalli ter com Helena, para alcançar mais detida explicação do quê acabava de ler. Ella ergueu-se quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o gesto benevolo com que elle lhe falou. Um longo suspiro de alivio rompeu-lhe do coração; seus braços cahiram sobre os hombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou emfim,—um minuto—das dores que a affligiam.

—Perdoaram-me? disse ella.

—Hão de perdoar; conte-me tudo.

—Oh! não posso, não sei; sei que é meu pae.

O capellão não insistiu; voltou aos outros dous, a quem achou na posição em que os deixára. Interrogaram-n'o com os olhos.

—Nada, disse elle. Seu coração não possue nesta occasião a necessaria fôrça para responder a quanto se lhe devia perguntar; demais não sabera tudo. Temos a primeira confissão da verdade....