—Prompta! exclamou Helena apenas viu o irmão assomar no alto da escada.

—Oh! isso não vai assim! respondeu Estacio. Não supponha que hade montar ja hoje como a moça que hontem viu passar na estrada. Vença primeiramente o medo.

—Não sei o que é medo, interrompeu ella com ingenuidade.

—Sim? Não a suppunha valente. Pois eu sei o que elle é.

—O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta a simples reflexão. Em pequena educaram-me com almas do outro mundo. Até a edade de dez annos era incapaz de penetrar n'uma sala escura. Um dia perguntei a mim mesma se era possivel que uma pessoa morta voltasse á terra. Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a mesma cousa. Lavei o meu espirito de semelhante tolice e hoje era capaz de entrar, de noite, n'um cemiterio. E dahi talvez não: os corpos que alli dormem tem direito de não ouvir mais um só rumor de vida.

Estacio chegára ao último degrau da escada. As derradeiras palavras ouviu-as elle com os olhos fitos na irmã e encostado ao poial do pedra.

—Quem lhe ensinou essas ideias? perguntou elle.

—Não são ideias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração. Senhor geometra, continuou brandindo caprichosamente o chicote,—veja se transcreve em algum compendio éstas figuras de minha invenção, e ande cavalgar commigo.

Com um movimento rapido travou da cauda do vestido, e caminhou para diante. Estacio acompanhou-a, a passo lento, como solicitado por dois sentimentos differentes: a affeição que o prendia á irmã, e a extranha impressão que ella lhe fazia sentir. Quando chegou á porta da cavallariça, viu aparelhados dous animaes, o cavalo de seus passeios, e a egua que a tia cavalgava uma ou outra vez.

—Que é isso? disse elle. Por ora vamos a algumas indicações somente, aqui no terreiro.