—A razão é clara, disse ella; foi uma simples travessura, um capricho... ou antes um cálculo.

—Um cálculo?

—Profundo, hediondo, diabolico, continuou a moça sorrindo. Eu queria passear algumas vezes a cavallo; não era possivel sahir só, e nesse caso...

—Bastava pedir-me que a acompanhasse.

—Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto era sahir commigo; era fingir que não sabia montar. A ideia momentanea de sua superioridade neste assumpto, era bastante para lhe inspirar uma dedicação decidida...

Estacio sorriu do cálculo; mas foi um sorriso passageiro, porque dentro de poucos segundos, seu rosto ficou serio, e elle perguntou era tom sêcco:

—Ja lhe negamos algum prazer que desejasse?

Helena estremeceu e ficou egualmente séria.

—Não! murmurou; minha dívida não tem limites.

Ésta palavra sahiu-lhe do coração. As palpebras cahiram-lhe e um veu de tristeza lhe apagou o rosto. Estacio arrependeu-se do que dissera. Sua sensibilidade apurada comprehendeu a irmã; viu que, por mais innocentes que suas palavras fossem, podiam ser tomadas á ma parte, e em tal caso o menos que se lhe podia arguir era a descortezia. Estacio timbrava em ser o mais polido dos homens. Inclinou-se para ella e rompeu o silêncio.