—Socega, borboleta!

Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mais doce, e que a reciproca affeição ia excluindo toda a preocupação alheia; era assim que a influência de Helena assumia as proporções de voto preponderante.

No terceiro dia D. Thomasia e Eugenia foram jantar a Andarahy. Eugenia estava nesse dia mais sisuda e docil que nunca; dissera-se que trazia a alma tão nova como o vestido, e menos enfeitada que elle. Estacio sentiu-se satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real. Poderam falar sosinhos mais de uma vez; todas as pessoas da casa pareciam conspiradas para lhes deixar a solidão. Foi ella quem recordou a proposta política do pai, da qual soubera casualmente, ouvindo a narração que este fizera a D. Thomasia. O desejo de Eugenia era pela affirmativa; e Estacio, receioso de despertar os caprichos adormecidos da moça, frouxamente resistiu, e consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assumpto.

—Deputado! exclamava Eugenia com os olhos no ceu.

Estacio acompanhou Eugenia e D. Thomasia na carruagem que as levou ao Rio Comprido. O dia fôra mais ou menos alegre; a viagem foi divertida e palreira como um regresso de romaria. Os cavallos mostravam-se tão lepidos como as pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgôsto de Eugenia.

Voltando a Andarahy, Estacio trazia a alma pura de todas as más impressões, que lhe deixavam usualmente as visitas á casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquelle dia. Eugenia parecia modificada. Em casa esperava-o porém uma desagradavel noticia: a tia sentira-se incommodada pouco depois que elle sahíra e recolhera-se ao quarto. O caso affligiu-o; mas não tardou a apparecer Helena, que o tranquilisou, dizendo-lhe que D. Ursula tinha apenas uma forte dor de cabeça, ja diminuida com o emprêgo de um remedio cazeiro.

No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia socegadamente, Estacio abriu uma das janellas do quarto e relanceou os olhos pela chacara. A alguns passos de distância, entre duas larangeiras, viu Helena a ler attentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escriptas. Seria alguma mensagem amorosa?

Ésta ideia molestou-o singularmente. Affastou-se da janella, conchegou as cortinas, e pela fresta procurou observar a irmã. Helena estava de pe, no mesmo logar, e percorria rapidamente as linhas, até o final da ultima página. Alli chegando, deu dous passos, tornou a parar volveu ao princípio da carta, para a ler de novo, não ja depressa, mas repousadamente. Estacio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, á qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciume. A ideia de que Helena podia repartir seu coração com outra pessoa desconsolava-o ao mesmo tempo que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo não a explicou elle, nem tentou investigal-a; sentiu-lhe somente os effeitos, e ficou alli sem saber que faria. Duas vezes sahiu da janella para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas as vezes, reflectindo que a curiosidade pareceria impolidez, se não era talvez, tyrania. Ao cabo de alguns minutos de hesitação, sahiu do quarto e dirigiu-se á chacara.

Quando alli chegou, Helena passeava lentamente com os olhos no chão. Estacio parou deante della.

—Ja fora de casa! exclamou em tom de gracejo.