Helena tinha a carta na mão esquerda; instinctivamente a amarrotou como para escondel-a melhor. Estacio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.

—Nota verdadeira, disse ella alisando tranquillamente o papel, e dobrando-o conforme recebêra; é uma carta.

—Segredos de moça?

—Quer lel-a? perguntou Helena apresentando-lh'a.

Estacio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A innocencia não teria mais puro rosto; a hypocrisia não encontraria mais impassivel máscara. Estacio contemplava-a a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cocegas; seu olhar ambicionava ser como o da Providencia que penetra nos mais intimos refolhos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. Ursula lhe pedia fôsse ter com ella. Estacio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquerito mental sôbre a procedencia da mysteriosa missiva. Um indicio havia de que podia conter alguma cousa secreta; era o gesto com que ella a escondeu. Mas não podia ser de alguma antiga companheira do collegio, que lhe confiava segredos seus? Estacio abraçou com alvorôço ésta hypothese. Depois, occorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de algum idyllio de collegio, em que Helena fosse protagonista, idyllio vivo ou morto, página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha elle com isso?

Fazendo ésta ultima reflexão, Estacio sacudiu do espirito o assumpto e seguiu a examinar as novas obras da chacara, entre as quaes figurava um vasto tanque. Ja alli estavam os operarios; ia começar o trabalho do dia. Estacio viu a obra feita e deu várias indicações novas. Algumas eram contrárias ao plano assentado; como lhe fizessem tal observação, Estacio rectificou-as. Depois admirou-se de não ver um vaso, que alias dous dias antes mandara remover; emfim recommendou a rega de uma planta, ainda humida da agua que o feitor lhe deitára nessa manhã.

D. Ursula não estava de todo boa, mas pôde almoçar á mesa commum. O sobrinho appareceu aborrecido; a sobrinha triste; o dialogo foi mastigado como o almôço. No fim deste, recebeu Estacio uma carta de Eugenia. Era uma tagarelice meia frivola, meia sentimental, mistura de risos e suspiros, sem objecto definido, a não ser pedir-lhe que escrevesse, se não pudesse ir vel-a.

Acabava elle de ler a carta, quando Helena lhe appareceu á porta do gabinete. Não a escondeu; teve um pensamento singular: mostral-a à irmã, na esperança de que ésta, pagando-lhe com egual confiança, lhe mostrasse a sua,—ideia que revellava o seu nenhum conhecimento do espirito das mulheres, porquanto só a indiscrição masculina era capaz de cahir em semelhante laço. Helena percorreu com os olhos a carta de Eugenia e esteve algum tempo silenciosa.

—Permitte-me um conselho? perguntou ella.

E como Estacio respondesse com um gesto de assentimento: