—Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vespera uma fortuna rara, ou antes unica, uma cousa que elle nunca esperara achar, nem merecia mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas, emfim, os pobres tambem são filhos de Deus. Foi o caso que, na vespera, perto das{63} dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada n'um chale grande. A dama vinha atraz d'elle, e mais depressa; ao passar rentesinha com elle, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando de vagar, como quem espera. O pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que, apezar da roupa simples, viu logo que não era cousa para os seus beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal instancia, que elle chegou a atrever-se um pouco; ella atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Cousa papafina. E depois o desinteresse... «Olhe, accrescentou elle, para V. S. é que era um bom arranjo.» Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava o comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, numero tantos...

—Não me diga isso!

—Imagine como não ficou o Andrade. Elle mesmo não soube o que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu. Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava contando; mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de inventar semelhante cousa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-lhe{64} segredo, dizendo que elle, pela sua parte, era discreto. Parece que ia sahir; Andrade deteve-o, e propôz-lhe um negocio; propôz-lhe ganhar vinte mil réis.—«Prompto!»—«Dou-lhe vinte mil réis, se você for commigo á casa d'essa moça e disser em presença d'ella que é ella mesma.»

—Oh!

—Não defendo o Andrade; a cousa não era bonita; mas a paixão, n'esse caso, céga os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas o golpe fora tão profundo, e elle amava-a tanto, que não recuou diante de uma tal vingança.

—O outro aceitou?

—Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte mil réis... Poz uma condição: não mettel-o em barulhos... Marocas estava na sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o abraçar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguem. Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empallideceu.—«É esta senhora?» perguntou elle.—«Sim, senhor», murmurou o Leandro com voz sumida, porque ha acções ainda mais ignobeis do que o proprio homem que as commette. Andrade abriu a carteira com grande afectação, tirou uma{65} nota de vinte mil réis e deu-lh'a; e, com a mesma affectação, ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro sahiu. A scena que se seguiu, foi breve, mas dramatica. Não a soube inteiramente, porque o proprio Andrade é que me contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que muita cousa lhe escapou. Ella não confessou nada; mas estava fóra de si, e, quando elle, depois de lhe dizer as cousas mais duras do mundo, atirou-se para a porta, ella rojou-se-lhe aos pés, agarrou-lhe as mãos, lacrimosa, desesperada, ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no patamar da escada; elle desceu vertiginosamente e sahiu.

—Na verdade, um sugeito réles, apanhado na rua; provavelmente eram habitos d'ella?

—Não.

—Não?