—Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veiu á minha casa, e esperou por mim. Já me tinha procurado tres vezes. Fiquei estupefacto; mas como duvidar, se elle tivera a precaução de levar a prova até á evidencia? Não lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estylo e todo o repertorio d'essas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal,{66} vivesse para a mulher e a filha, a mulher tão boa, tão meiga... Elle concordava, mas tornava ao furor. Do furor passou á duvida; chegou a imaginar que a Marocas, com o fim de o experimentar, inventára o artificio e pagára ao Leandro para vir dizer-lhe aquillo; e a prova é que o Leandro, não querendo elle saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o numero. E agarrado a esta inverosimelhança, tentava fugir á realidade; mas a realidade vinha—a pallidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio até que elle arrependia-se de ter ido tão longe. Quanto a mim, cogitava na aventura, sem atinar com a explicação. Tão modesta! maneiras tão acanhadas!
—Ha uma phrase de theatro que pode explicar a aventura, uma phrase de Augier, creio eu: «a nostalgia da lama.»
—Acho que não; mas vá ouvindo. Ás dez horas appareceu-nos em casa uma criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava afflicta em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito, trancada no quarto, sahiu de casa sem jantar, e não voltára mais. Contive o Andrade, cujo primeiro gesto foi para sahir logo. A preta pedia-nos por tudo, que fossemos descobrir a ama.{67} «Não é costume d'ella sahir?» perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era costume. «Está ouvindo?» bradou elle para mim. Era a esperança que de novo empolgára o coração do pobre diabo. «E hontem?...» disse eu. A preta respondeu que na vespera sim; mas não lhe perguntei mais nada, tive compaixão do Andrade, cuja afflicção crescia, e cujo pundonor ia cedendo diante do perigo. Sahimos em busca da Marocas; fomos a todas as casas em que era possivel encontral-a; fomos á policia; mas a noite passou-se sem outro resultado. De manhã voltámos á policia. O chefe ou um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da aventura a parte conveniente; aliás a ligação do Andrade e da Marocas era conhecida de todos os seus amigos. Pesquizou-se tudo; nenhum desastre se déra durante a noite; as barcas da Praia Grande não viram cahir ao mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam nenhuma; as boticas nenhum veneno. A policia poz em campo todos os seus recursos, e nada. Não lhe digo o estado de afflicção em que o pobre Andrade viveu durante essas longas horas, porque todo o dia se passou em pesquizas inuteis. Não era só a dor de a perder; era tambem o remorso, a duvida, ao menos, da consciencia,{68} em presença de um possivel desastre, que parecia justificar a moça. Elle perguntava-me, a cada passo se não era natural fazer o que fez, no delirio da indignação, se eu não faria a mesma cousa. Mas depois tornava a affirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o mesmo ardor com que na vespera tentara provar que era falsa; o que elle queria era acommodar a realidade ao sentimento da occasião.
—Mas, emfim, descobriram a Marocas?
—Estavamos comendo alguma cousa, em um hotel, eram perto de oito horas, quando recebemos noticia de um vestigio:—um cocheiro que levára na vespera uma senhora para o Jardim Botanico, onde ella entrou em uma hospedaria, e ficou. Nem acabámos o jantar; fomos no mesmo carro ao Jardim Botanico. O dono da hospedaria confirmou a versão; accrescentando que a pessoa se recolhera a um quarto, não comera nada desde que chegou na vespera; apenas pediu uma chicara de café; parecia profundamente abatida. Encaminhámo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu á porta; ella respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo de preparar nada; empurrou-me, e cahiram nos braços um do outro. Marocas chorou muito e perdeu os sentidos.{69}
—Tudo se explicou?
—Cousa nenhuma. Nenhum d'elles tornou ao assumpto; livres de um naufragio, não quizeram saber nada da tempestade que os metteu a pique. A reconciliação fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, mezes depois, uma casinha em Catumby; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois annos. Quando elle seguia para o norte, em commissão do governo, a affeição era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não tivessem já a mesma intensidade. Não obstante, ella quiz ir tambem; fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu na provincia. A Marocas sentiu profundamente a morte, poz luto, e considerou-se viuva; sei que nos tres primeiros annos, ouvia sempre uma missa no dia anniversario. Ha dez annos perdi-a de vista. Que lhe parece tudo isto?
—Realmente, ha occurrencias bem singulares, se o senhor não abusou da minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...
—Não inventei nada; é a realidade pura.
—Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.{70}