Marianna ouvia com inveja essa bella definição do socego conjugal. A rebellião de Eva embocava nella os seus clarins; e o contacto da amiga dava-lhe um prurido de independencia e vontade. Para completar a situação, esta Sophia não era só muito senhora de si, mas tambem dos outros; tinha olhos para todos os inglezes, a cavallo ou a pé. Honesta, mas namoradeira; o termo é crú, e não ha tempo de compor outro mais brando. Namorava a torto e a direito, por uma necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco miudo do amor, que ella distribuia a todos os pobres que lhe batiam á porta:—um nikel a um, outro a outro; nunca uma nota de cinco mil réis, menos ainda uma apolice. Ora este sentimento caritativo induziu-a a propor á amiga que fossem passear, ver as lojas, contemplar a vista de outros chapéos bonitos e graves. Marianna aceitou; um certo demonio soprava n'ella as furias da vingança. Demais, a amiga tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e não lhe deu tempo de reflectir. Pois sim, iria, estava cançada de viver captiva. Tambem queria gosar um pouco, etc., etc.
Emquanto Sophia foi vestir-se, Marianna deixou-se estar na sala, irrequieta e contente comsigo mesma. Planeou a vida de toda aquella semana,{96} marcando os dias e horas de cada cousa, como n'uma viagem official. Levantava-se, sentava-se, ia á janella, á espera da amiga.
—Sophia parece que morreu, dizia de quando em quando.
De uma das vezes que foi á janella, viu passar um rapaz a cavallo. Não era inglez, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roça, desconfiado de um inglez, e sentiu crescer-lhe o odio contra a raça masculina,—com excepção, talvez, dos rapazes a cavallo. Na verdade, aquelle era affectado demais; esticava a perna no estribo com evidente vaidade das botas, dobrava a mão na cintura, com um ar de figurino. Marianna notou-lhe esses dous defeitos; mas achou que o chapéo resgatava-os; não que fosse um chapéo alto; era baixo, mas proprio do apparelho equestre. Não cobria a cabeça de um advogado indo gravemente para o escriptorio, mas a de um homem que espairecia ou matava o tempo.
Os tacões de Sophia desceram a escada, compassadamente. Prompta! disse ella d'ahi a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. Já sabemos que era alta. O chapéo augmentava-lhe o ar senhoril; e um diabo de vestido de seda preta, arredondando-lhe as fórmas do busto, fazia-a ainda mais{97} vistosa. Ao pé della, a figura de Marianna desapparecia um pouco. Era preciso attentar primeiro nesta para ver que possuia feições mui graciosas, uns olhos lindos, muita e natural elegancia. O peior é que a outra dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as ver, tomava-o Sophia para si. Este reparo seria incompleto, se eu não accrescentasse que Sophia tinha consciencia da superioridade, e que apreciava por isso mesmo as bellezas do genero Marianna, menos derramadas e apparentes. Se é um defeito, não me compete emendal-o.
—Onde vamos nós? perguntou Marianna.
—Que tolice! vamos passear á cidade... Agora me lembro, vou tirar o retrato; depois vou ao dentista. Não; primeiro vamos ao dentista. Você não precisa de ir ao dentista?
—Não.
—Nem tirar o retrato?
—Já tenho muitos. E para que? para dal-o «áquelle senhor»?