Sophia comprehendeu que o resentimento da amiga persistia, e, durante o caminho, tratou de lhe pôr um ou dous bagos mais de pimenta. Disse-lhe que, embora fosse difficil, ainda era tempo de libertar-se. E ensinava-lhe um methodo para subtrahir-se á{98} tyrannia. Não convinha ir logo de um salto, mas de vagar, com segurança, de maneira que elle desse por si quando ella lhe puzesse o pé no pescoço. Obra de algumas semanas, tres a quatro, não mais. Ella, Sophia, estava prompta a ajudal-a. E repetia-lhe que não fosse molle, que não era escrava de ninguem, etc. Marianna ia cantando dentro do coração a marselheza do matrimonio.
Chegaram á rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio dia. Muita gente, andando ou parada, o movimento do costume. Marianna sentiu-se um pouco atordoada, como sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez, que eram o fundo do seu caracter e da sua vida, receberam daquella agitação os repellões do costume. Ella mal podia andar por entre os grupos, menos ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a confusão das gentes, tal era a variedade das lojas. Conchegava-se muito á amiga, e, sem reparar que tinham passado a casa do dentista, ia anciosa de lá entrar. Era um repouso; era alguma cousa melhor do que o tumulto.
—Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.
—Sim? respondia Sophia, voltando a cabeça para ella e os olhos para um rapaz que estava na outra calçada.{99}
Sophia, prática daquelles mares, transpunha, rasgava ou contornava as gentes com muita pericia e tranquillidade. A figura impunha; os que a conheciam gostavam de vel-a outra vez; os que não a conheciam paravam ou voltavam-se para admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de caridade, derramava os olhos á direita e a esquerda, sem grande escandalo, porque Marianna servia a cohonestar os movimentos. Nada dizia seguidamente; parece até que mal ouvia as respostas da outra: mas fallava de tudo, de outras damas que iam ou vinham, de uma loja, de um chapéo... Justamente os chapéos,—de senhora ou de homem,—abundavam naquella primeira hora da rua do Ouvidor.
—Olha este, dizia-lhe Sophia.
E Marianna acudia a vel-os, femininos ou masculinos, sem saber onde ficar, porque os demonios dos chapéos succediam-se como n'um kaleidoscopio. Onde era o dentista? perguntava ella á amiga. Sophia só á segunda vez lhe respondeu que tinham passado a casa; mas já agora iriam até ao fim da rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.
—Uf! respirou Marianna entrando no corredor.
—Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça... A sala do dentista tinha já algumas freguezas.{100} Marianna não achou entre ellas uma só cara conhecida, e para fugir ao exame das pessoas estranhas, foi para a janella. Da janella podia gozar a rua, sem atropello. Recostou-se; Sophia veiu ter com ella. Alguns chapéos masculinos, parados, começaram a fital-as; outros, passando, faziam a mesma cousa. Marianna aborreceu-se da insistencia; mas, notando que fitavam principalmente a amiga, dissolveu-se-lhe o tédio n'uma especie de inveja. Sophia, entretanto, contava-lhe a historia de alguns chapéos,—ou, mais correctamente, as aventuras. Um delles merecia os pensamentos de Fulana; outro andava derretido por Sicrana, e ella por elle, tanto que eram certos na rua do Ouvidor ás quartas e sabbados, entre duas e tres horas. Marianna ouvia aturdida. Na verdade, o chapéo era bonito, trazia uma linda gravata, e possuia um ar entre elegante e pelintra, mas...
—Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se diz.