Marianna fitou pensativa o chapéo denunciado. Havia agora mais tres, de egual porte e graça, e provavelmente os quatro fallavam dellas, e fallavam bem. Marianna enrubeceu muito, voltou a cabeça para o outro lado, tornou logo á primeira attitude, e afinal entrou. Entrando, viu na sala duas senhoras{101} recem-chegadas, e com ellas um rapaz que se levantou promptamente e veiu comprimental-a com muita ceremonia. Era o seu primeiro namorado.

Este primeiro namorado devia ter agora trinta e tres annos. Andara por fóra, na roça, na Europa, e afinal na presidencia de uma provincia do sul. Era mediano de estatura, pallido, barba inteira e rara, e muito apertado na roupa. Tinha na mão um chapéo novo, alto, preto, grave, presidencial, administrativo, um chapéo adequado á pessoa e ás ambições. Marianna, entretanto, mal pode vel-o. Tão confusa ficou, tão desorientada com a presença de um homem que conhecera em especiaes circumstancias, e a quem não vira desde 1877, que não pode reparar em nada. Estendeu-lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma resposta qualquer, e ia tornar á janella, quando a amiga sahiu dalli.

Sophia conhecia tambem o recem-chegado. Trocaram algumas palavras. Marianna, impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se não era melhor adiar os dentes para outro dia; mas a amiga disse-lhe que não; negocio de meia hora a trez quartos. Marianna sentia-se oppressa: a presença de um tal homem atava-lhe os sentidos, lançava-a na luta e na confusão. Tudo culpa do marido. Se elle não teimasse e não caçoasse com{102} ella, ainda em cima, não aconteceria nada. E Marianna, pensando assim, jurava tirar uma desforra. De memoria contemplava a casa, tão socegada, tão bonitinha, onde podia estar agora, como de costume, sem os safanões da rua, sem a dependencia da amiga...

—Marianna, disse-lhe esta, o Dr. Viçoso teima que está muito magro. Você não acha que está mais gordo do que no anno passado... Não se lembra delle no anno passado?

Dr. Viçoso era o proprio namorado antigo, que palestrava com Sophia, olhando muitas vezes para Marianna. Esta respondeu negativamente. Elle aproveitou a fresta para puxal-a á conversação; disse, que, na verdade, não a vira desde alguns annos. E sublinhava o dito com um certo olhar triste e profundo. Depois abriu o estojo dos assumptos, saccou para fóra o theatro lyrico. Que tal achavam a companhia? Na opinião delle era excellente, menos o barytono; o barytono parecia-lhe cançado. Sophia protestou contra o cançasso do barytono, mas elle insistiu, accrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira vez, já lhe parecera a mesma cousa. As damas, sim, senhora; tanto a soprano como a contralto eram de primeira ordem. E fallou{103} das operas, citava os trechos, elogiou a orchestra, principalmente nos Huguenotes... Tinha visto Marianna na ultima noite, no quarto ou quinto camarote da esquerda, não era verdade?

—Fomos, murmurou ella, accentuando bem o plural.

—No Cassino é que a não tenho visto, continuou elle.

—Está ficando um bicho do matto, acudiu Sophia rindo.

Viçoso gostára muito do ultimo baile, e desfiou as suas recordações; Sophia fez o mesmo ás della. As melhores toilettes foram descriptas por ambos com muita particularidade; depois vieram as pessoas, os caracteres, dous ou tres picos de malicia, mas tão anodina, que não fez mal a ninguem. Marianna ouvia-os sem interesse; duas ou tres vezes chegou a levantar-se e ir á janella; mas os chapéos eram tantos e tão curiosos, que ella voltava a sentar-se. Interiormente, disse alguns nomes feios á amiga; não os ponho aqui por não serem necessarios, e, aliás, seria de máu gosto desvendar o que esta moça pôde pensar da outra durante alguns minutos de irritação.

—E as corridas do Jockey-Club? perguntou o ex-presidente.{104}