Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao collo uma creança de cinco a seis mezes. D. Camilla segurava na mão o chapellinho de sol aberto para cobrir a creança. Encontrei-a oito dias depois, com a mesma creança, a mesma preta e o mesmo chapéu de sol. Vinte dias depois, e trinta dias mais tarde, tornei a vel-a, entrando para o bond, com a preta e a creança.—Você já deu de mamar? dizia ella á preta. Olhe o sol. Não vá cahir. Não aperte muito o menino. Acordou? Não mexa com elle. Cubra a carinha, etc., etc.

Era o neto. Ella, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa da creança, tão a miudo, tão sem outra{160} senhora, que antes parecia mãi do que avó; e muita gente pensava que era mãi. Que tal fosse a intenção de D. Camilla não o juro eu. («Não jurarás», MATH. V, 34 ). Tão sómente digo que nenhuma outra mãi seria mais desvellada do que D. Camilla com o neto; attribuirem-lhe um simples filho era a cousa mais verosimil do mundo.

FIM DE UMA SENHORA.

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[ANECDOTA PECUNIARIA]

Chama-se Falcão o meu homem. N'aquelle dia—quatorze de Abril de 1870—quem lhe entrasse em casa, ás dez horas da noite, vel-o-hia passear na sala, em mangas de camisa, calça preta e gravata branca, resmungando, gesticulando, suspirando, evidentemente afflicto. Ás vezes, sentava-se; outras, encostava-se á janella, olhando para a praia, que era a da Gambôa. Mas, em qualquer logar ou attitude, demorava-se pouco tempo.

—Fiz mal, dizia elle, muito mal. Tão minha amiga que ella era! tão amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal... Ao menos, que seja feliz!

Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, não me hão de crer; se descer a definir o preço, dez contos de réis, voltar-me-hão as costas com desprezo e indignação. Entretanto, basta ver este olhar felino, estes dois beiços, mestres de calculo, que,{162} ainda fechados, parecem estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital do nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: elle faz arte pela arte, não ama o dinheiro pelo que elle póde dar, mas pelo que é em si mesmo! Ninguem lhe vá fallar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa fina, nem carruagem, nem commenda. Não se ganha dinheiro para esbanjal-o, dizia elle. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação. Vai muitas vezes á burra, que está na alcova de dormir, com o unico fim de fartar os olhos nos rolos de ouro e maços de titulos. Outras vezes, por um requinte de erotismo pecuniario, contempla-os só de memoria. N'este particular, tudo o que eu pudesse dizer, ficaria abaixo de uma palavra d'elle mesmo, em 1857.

Já então millionario, ou quasi, encontrou na rua dois meninos, seus conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil réis, que lhes dera um tio, era verdadeira. Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se d'isso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou tremulo na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...

—É falsa? perguntou com impaciencia um dos meninos.{163}