—Não; é verdadeira.
—Dê cá, disseram ambos.
Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por elle, disse-lhe com a maior candura do mundo:
—Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto vêr.
Era assim que elle amava o dinheiro, até á contemplação desinteressada. Que outro motivo podia leval-o a parar, diante das vitrinas dos cambistas, cinco, dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes de libras e francos, tão arrumadinhos e amarellos? O mesmo sobresalto com que pegou na nota de cinco mil réis, era um rasgo subtil, era o terror da nota falsa. Nada aborrecia tanto, como os moedeiros falsos, não por serem criminosos, mas prejudiciaes, por desmoralisarem o dinheiro bom.
A linguagem do Falcão valia um estudo. Assim é que, um dia, em 1864, voltando do enterro de um amigo, referiu o explendor do prestito, exclamando com enthusiasmo:—«Pegavam no caixão tres mil contos!» E, como um dos ouvintes não o entendesse logo, concluiu do espanto, que duvidava d'elle, e discriminou a affirmação:—«Fulano quatro{164} centos, Sicrano seiscentos... Sim, senhor, seiscentos; ha dois annos, quando desfez a sociedade com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas supponhamos quinhentos...» E foi por diante, demonstrando, sommando e concluindo:—«Justamente, tres mil contos!»
Não era casado. Casar era botar dinheiro fóra. Mas os annos passaram, e aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral, que não comprehendeu logo, e era a saudade paterna. Não mulher, não parentes, mas um filho ou uma filha, se elle o tivesse, era como receber um patacão de ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido accumulado em tempo; não podia começal-o a ganhar tão tarde. Restava a loteria; a loteria deu-lhe o premio grande.
Morreu-lhe o irmão, e tres mezes depois a cunhada, deixando uma filha de onze annos. Elle gostava muito d'esta e de outra sobrinha, filha de uma irmã viuva; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao delirio de levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco, mas, emfim, recolheu a orphã; era a filha cobiçada. Não cabia em si de contente; durante as primeiras semanas, quasi não sahia de casa, ao pé d'ella, ouvindo-lhe historias e tolices.{165}
Chamava-se Jacintha, e não era bonita; mas tinha a voz melodiosa e os modos fagueiros. Sabia ler e escrever; começava a aprender musica. Trouxe o piano comsigo, o methodo e alguns exercicios; não pôde trazer o professor, porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que aprendera, e um dia... mais tarde... Onze annos, doze annos, treze annos, cada anno que passava era mais um vinculo que atava o velho solteirão á filha adoptiva, e vice-versa. Aos treze, Jacintha mandava na casa; aos dezesete era verdadeira dona. Não abusou do dominio; era naturalmente modesta, frugal, poupada.
—Um anjo! dizia o Falcão ao Chico Borges.