—Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alma neutra, nem na alma sexual.

—Mas então em que é que Vossa Magestade crê, se não crê em nenhuma d'ellas?{269}

—Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do universo.

—Mas cumpre-lhe escolher:—ou crêr na alma neutra, e punir a academia viva, ou crêr na alma sexual, e absolvel-a.

—Que deliciosa que é a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua boca: é a fonte da sabedoria.

Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ella era a mulher mascula—um bufalo com pennas de cysne. Era o bufalo que andava agora no aposento, mas d'ahi a pouco foi o cysne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obeteve do rei, entre duas caricias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legitima e orthodoxa, e a outra absurda e perversa. N'esse mesmo dia, foi o decreto mandado á academia triumphante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o reino. A academia poz luminarias; restabeleceu-se a paz publica.

[III]

Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma noite, como o rei examinasse{270} alguns papeis do Estado, perguntou-lhe ella se os impostos eram pagos com pontualidade.

Ohimé! exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara de um missionario italiano. Poucos impostos têm sido pagos. Eu não quizera mandar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue? sangue? não, não quero sangue...

—E se eu lhe der um remedio a tudo?