Vai senão quando, uma das academias achou esta solução ao problema:

—Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.

—Nego, bradaram as outras tres; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.{267}

Não foi preciso mais para que as vielas e aguas de Bangkok se tingissem de sangue academico. Veiu primeiramente a controversia, depois a descompostura, e finalmente a pancada. No principio da descompostura tudo andou menos mal; nenhuma das rivaes arremessou um improperio que não fosse escrupulosamente derivado do sanscrito, que era a lingua academica, o latim de Sião. Mas d'alli em diante perderam a vergonha. A rivalidade desgrenhou-se, pôz as mãos na cintura, baixou á lama, á pedrada, ao murro, ao gesto vil, até que a academia sexual, exasperada, resolveu dar cabo das outras, e organisou um plano sinistro... Ventos que passaes, se quizesseis levar comvosco estas folhas de papel, para que eu não contasse a tragedia de Sião! Custa-me (ai de mim!), custa-me escrever a singular desforra. Os academicos armaram-se em segredo, e foram ter com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o famoso problema, faziam subir ao céu uma nuvem de vagalumes. Nem preambulo, nem piedade. Cahiram-lhe em cima espumando de raiva. Os que puderam fugir, não fugiram por muitas horas; perseguidos e attacados, morreram na beira do rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo, trinta e oito cadaveres. Cortaram uma{268} orelha aos principaes, e fizeram d'ellas collar e braceletes para o presidente vencedor, o sublime U-Tong. Ebrios da victoria, celebraram o feito com um grande festim, no qual cantaram este hymno magnifico: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a luminaria do universo».

A cidade acordou estupefacta. O terror apoderou-se da multidão. Ninguem podia absolver uma acção tão crúa e feia; alguns chegavam mesmo a duvidar do que viam... Uma só pessoa approvou tudo: foi a bella Kinnara, a flôr das concubinas regias.

[II]

Mollemente deitado aos pés da bella Kinnara, o joven rei pedia-lhe uma cantiga.

—Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma sexual.

—Crês no absurdo, Kinnara.

—Vossa Magestade crê então na alma neutra?