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[AS ACADEMIAS DE SIÃO]
Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve academias: mas supponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.
[I]
As estrellas, quando viam subir, atravez da noite, muitos vagalumes côr de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sião, que se divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas ás outras, perguntavam:
—Reaes suspiros, em que é que se occupa esta noite o lindo Kalaphangko?
Ao que os vagalumes respondiam com gravidade:
—Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Sião; trazemos comnosco toda a sabedoria do universo.{266}
Uma noite, foram em tal quantidade os vagalumes, que as estrellas, de medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e elles tomaram conta de uma parte do espaço, onde se fixaram para sempre com o nome de via-lactea.
Deu logar, a essa enorme ascenção de pensamentos o facto de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema:—porque é que ha homens femininos e mulheres masculas? E o que as induziu a isso foi a indole do joven rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo n'elle respirava a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, attitudes molles e obedientes e um cordial horror ás armas. Os guerreiros siamezes gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram dansas, comedias e cantigas, á maneira do rei que não cuidava de outra cousa. D'ahi a illusão das estrellas.