—Não queria mostrar esta, disse-lhe ella primeiro, como não mostrei outras que tenho recebido e botado fóra; são tolices, intrigas, que andam fazendo para... Leia, leia a carta.

Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos avidos. Ella enterrou a cabeça na cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empallidecer. Quando elle, depois de alguns minutos, proferiu duas ou tres palavras, tinha já a physionomia composta e um{262} esboço de sorriso. Mas a mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a levantou d'ahi a tres ou quatro minutos, e não para fital-o de uma vez, mas aos pedaços, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anonymo. Vendo-lhe, ao contrario, um sorriso, achou que era o da innocencia, e fallou de outra cousa.

Redobraram as cautelas do marido; parece tambem que elle não pôde esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher. Pela sua parte, a viuva, tendo noticia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras affectuosas com a amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se socio do Cassino fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia annos a viuva, como sabemos. Na vespera, foi Maria Olympia (com a tia que chegara de fóra), comprar-lhe um mimo: era uso entre ellas. Comprou-lhe um annel. Viu na mesma casa uma joia engraçada, uma meia lua de diamantes para o cabello, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Mahomet que fosse; todo o emblema de diamantes é christão. Maria Olympia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o{263} desejo, quiz comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.

Veiu a noite do baile. Maria Olympia subiu commovida as escadas do Cassino. Pessoas que a conheceram n'aquelle tempo, dizem que o que ella achava na vida exterior, era a sensação de uma grande caricia publica, a distancia; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher nova copia de admirações, e não se enganou, porque ellas vieram, e de fina casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viuva ali appareceu. Estava realmente bella, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabello negro. Toda a gente admirou sempre a viuva n'aquelle salão. Tinha muitas amigas, mais ou menos intimas, não poucos adoradores, e possuia um genero de espirito que espertava com as grandes luzes. Certo secretario de legação não cessava de a recommendar aos diplomatas novos: «Causes avec Mme. Tavares; c'est adorable!» Assim era nas outras noites; assim foi n'esta.

—Hoje quasi não tenho tido tempo de estar com você, disse ella a Maria Olympia, perto de meia-noite.{264}

—Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de humedecer os labios, como para chamar a elles todo o veneno que tinha no coração:—Ypiranga, você está hoje uma viuva deliciosa... Vem seduzir mais algum marido?

A viuva empalideceu, e não pode dizer nada. Maria Olympia accrescentou, com os olhos, alguma cousa que a humilhasse bem, que lhe respingasse lama no triumpho. Já no resto da noite fallaram pouco; trez dias depois romperam para nunca mais.

FIM DA SENHORA DO GALVÃO.