25 de Fevereiro.

Quando mana Rita veiu trazer-me a noticia oficial do cazamento mostrei-lhe a minha carta de participação, e fiz um gesto de triunfo, perguntando-lhe quem tinha razão no cemiterio, ha um anno. Ainda uma vez concordou que era eu, mas emendou em parte, dizendo que a nossa aposta é que ella cazaria commigo, e citou a aposta entre Deus e o Diabo a proposito de Fausto, que eu lhe li aqui em caza no texto de Goethe.

—Não, trapalhona, você é que me incitou a tental-o, e desculpou a minha idade, com palavras bonitas, lembra-se?

Lembrava-se, sorrimos, e entrámos a falar dos noivos. Eu disse bem de ambos, ella não disse mal de nenhum, mas falou sem calor. Talvez não gostasse de ver cazar a viuva, como se fosse cousa condenavel ou nova. Não tendo cazado outra vez, pareceu-lhe que ninguem deve passar a segundas nupcias. Ou então (releve-me a doce mana, se algum dia ler este papel), ou então padeceu agora taes ou quaes remorsos de não havel-o feito tambem... Mas, não, seria suspeitar de mais de pessoa tão excelente.

Ahi fica, mal resumida, a nossa conversação. Não falámos da data do cazamento, nem da partida do cazal, se partisse. Rita era pouca para referir anedotas, repetir ditos e boatos, nenhum malevolo nem feio, todos interessantes, ouvidos á gente Aguiar.


Seis horas da tarde.

Vim agora da rua, onde me confirmaram que o corretor Miranda teve hoje de manhã uma congestão cerebral. Rita só me falou disso ao sair daqui, e esqueceu-me escrevel-o. Estavamos no patamar da escada quando ella me contou que ouvira a noticia, no bonde, a dous desconhecidos.

—Só agora é que você me dá esta novidade? disse-lhe eu. Tem razão; a vida tem os seus direitos imprescritiveis; primeiro os vivos e os seus consorcios; os mortos e os seus enterros que esperem.

Tambem eu fiz o mesmo; só agora falo do homem.