26 de Fevereiro.
Miranda morreu hontem ás dez horas; enterra-se hoje ás quatro. Creio que deixa a familia bem. Davamo-nos sem ser grandes amigos. Eu, se fosse a somar os amigos que tenho perdido por esse mundo, chegaria a algumas duzias delles. Os jornaes dizem que não ha convites para o enterro; irei ao enterro sem convite.
Dez horas da noite.
Lá fui a enterrar o Miranda. Não valeria a pena contal-o, se não fosse o que me sucedeu no fim. Muita gente, as tristezas do costume. A propria Cesaria parecia abatida; não digo se chorava ou não. Aguiar e Campos tambem compareceram, e outros conhecidos.
No cemiterio, deitada a ultima pá de terra na cova, lembrou-me ir ao jazigo dos meus. Desviei-me e fui; achei-o lavado como de costume, e depois de alguns minutos, vendo que a gente não acabava de sair, caminhei para o tumulo do Noronha, marido de Fidelia. Sabia onde ficava, mas ainda lá não fora.
Agora que a viuva está prestes a enterral-o de novo, pareceu-me interessante miral-o tambem, se é que não levara tal ou qual sabor em atribuir ao defunto o verso de Shelley que já puzera na minha boca, a respeito da mesma bella dama: I can, etc. Tumulo grave e bonito, bem conservado, com dous vasos de flores naturaes, não ali plantadas, mas colhidas e trazidas naquella mesma manhã. Esta circumstancia fez-me crer que as flores seriam da propria Fidelia, e um coveiro que vinha chegando respondeu á minha pergunta: «São de uma senhora que ahi as traz de vez em quando...»
A pergunta foi feita tão naturalmente que o coveiro não teve duvida em responder, nem eu em contal-o aqui. Tambem não quero calar o que vim pensando commigo. Já não havia ninguem dos que acompanharam o enterro do Miranda. Chegava outro, e entre um e outro meti-me no carro e vim para casa. Em caminho pensei que a viuva Noronha, se efetivamente ainda leva flores ao tumulo do marido, é que lhe ficou este costume, se lhe não ficou essa afeição. Escolha quem quizer; eu estudei a questão por ambos os lados, e quando ía a achar terceira solução chegara á porta da casa. Desci, dei ao cocheiro a molhadura de uso, e enfiei pelo corredor. Vinha cançado, despi-me, escrevi esta nota e vou jantar. Ao fim da noite se puder, direi a terceira solução: se não, amanhã. A terceira solução é a que lá fica atraz, não me lembra o dia... ah! foi no segundo anniversario do meu regresso ao Rio de Janeiro, quando eu imaginei poder encontral-a deante da pessoa extinta, como se fosse a pessoa futura, fazendo de ambas uma só creatura presente. Não me explico melhor, porque me entendo assim mesmo, ainda que pouco. D. Cesaria, se vier a sabel-o é capaz de ir dizel-o ao proprio Tristão, com uma gota amarga ou corrupta, ou ambas as cousas para variar... Já já, não; está ainda com a morte do cunhado na garganta, mas tudo passa, até os cunhados.