Sem data.

Já lá vão dias que não escrevo nada. A principio foi um pouco de reumatismo no dedo, depois visitas, falta de materia, emfim preguiça. Sacudo a preguiça.

A noite passada estive em casa da viuva Noronha, quasi que a sós com ella; havia a mais o tio, um colega da Relação e uma parenta velha. Tristão fôra a Petropolis, levado pelos padrinhos até á barca da Prainha, e por mim que os vi passar na rua da Quitanda, e subi ao carro convidado por elles. Não lhes ouvi então o motivo da ida a Petropolis, mas já o sabia de vespera; foi examinar uma caza para o noivado. Conclui, não sei porque, que elles ficavam morando aqui.

Posso dizer que verdadeiramente fiquei a sós com ella. Tendo ouvido ao tio que a sobrinha andava com saudades do velho amigo,—que sou eu—imaginei que era mentira; o tio queria parceiro para cartas. Não fui e acertei; a parenta foi ao voltarete com os dous magistrados.

Eu, relativamente a Fidelia, já cheguei á liberdade de lhe perguntar se não tinha saudades do noivo. A resposta foi afirmativa, mas calada, um sorriso breve e um gesto de sobrancelhas. Tristão foi o assunto mais frequente da conversação, dizendo eu todo o bem que penso delle e francamente é muito, ao que ella retrucava sem vaidade, antes com modestia e discrição; em si mesma devia estar feliz. Disse-me que elle recebera cartas da familia, confirmando por extenso o que já lhe mandára em resumo. A da mãe era toda ternura, citou-me algumas frases da futura sogra, e foi buscar a carta della para que eu a lesse tambem.

—Cartas politicas não vieram?

—Parece que vieram.

Li e louvei muito a carta da paulista, que achei efetivamente terna, ainda que derramada, mas ternura de mão não conhece sobriedade de estilo. Era escrita á propria Fidelia.

Vendo que esta gostava da conversa, não lhe pedi musica; ella é que foi de si mesma tocar piano, um trecho não sei de que autor, que se Tristão não ouviu em Petropolis não foi por falta de expressão da pianista. A eternidade é mais longe, e ella já lá mandou outros pedaços da alma; vantagem grande da musica, que fala a mortos e a ausentes.