8 de Abril.
—Sabe o que D. Fidelia me escreveu agora? perguntou-me Aguiar. Que o Banco tome a si vender Santa-Pia.
—Creio que já ouvi falar nisso...
—Sim, ha tempos, mas era ideia que podia passar; vejo agora que não passou.
—Os libertos têm continuado no trabalho?
—Têm, mas dizem que é por ella.
Não me lembra se fiz alguma reflexão ácerca da liberdade e da escravidão, mas é possivel, não me interessando em nada que Santa-Pia seja ou não vendida. O que me interessa particularmente é a fazendeira,—esta fazendeira da cidade, que vae cazar na cidade. Já se fala no cazamento com alguma insistencia, bastante admiração, e provavelmente inveja. Não falta quem pergunte pelo Noronha. Onde está o Noronha? Mas que fim levou o Noronha?
Não são muitos que perguntam, mas as mulheres são mais numerosas,—ou porque as afligiam as lagrimas de Fidelia,—ou porque achem Tristão interessante,—ou porque não neguem belleza á viuva. Tambem pode ser que as tres razões concorram juntas para tanta curiosidade; mas, emfim, a pergunta faz-se, e a resposta é um gesto parecido com esta ou outra resposta equivalente:—Ah! minha amiga (ou meu amigo), se eu fosse a indagar onde param os mortos, andaria o infinito e acabaria a eternidade.
É engenhoso, mas não é bom, principalmente não é certo. Os mortos param no cemiterio, e lá vae ter a afeição dos vivos, com as suas flores e recordações. Tal sucederá á propria Fidelia, quando para lá fôr; tal sucede ao Noronha, que lá está. A questão é que virtualmente não se quebre este laço, e que a lei da vida não destrua o que foi da vida e da morte. Creio nas afeições de Fidelia; chego a crer que as duas formam uma só, continuada.