Quando eu era do corpo diplomatico efetivo não acreditava em tanta cousa junta, era inquieto e desconfiado; mas, se me apozentei foi justamente para crer na sinceridade dos outros. Que os efetivos desconfiem!


15 de Abril.

Já se não vende Santa-Pia, não por falta de compradores, ao contrario; em cinco dias apareceram logo dous, que conhecem a fazenda, e só o primeiro recusou o preço. Não se vende; é o que me disseram hoje de manhã. Conclui que o cazal Tristão iria lá passar o resto dos seus dias. Podia ser, mas é ainda mais inesperado.

O que ouvi depois é que Tristão, sabendo da resolução da viuva, formulou um plano e foi communicar-lh'o. Não o fez nos proprios termos claros e diretos, mas por insinuação. Uma vez que os libertos conservam a enxada por amor da sinhá-moça, que impedia que ella pegasse da fazenda e a désse aos seus cativos antigos? Elles que a trabalhem para si. Não foi bem assim que lhe falou; poz-lhe uma nota voluntariamente seca, em maneira que lhe apagasse a côr generosa da lembrança. Assim o interpretou a propria Fidelia, que o referiu a D. Carmo, que m'o contou, acrescentando:

—Tristão é capaz da intenção e do disfarce, mas eu tambem acho possivel que o principal motivo fosse arredar qualquer suspeita de interesse no cazamento. Seja o que for, parece que assim se fará.

—E andam criticos a contender sobre romantismos e naturalismos!

Parece que D. Carmo não me achou graça á exclamação, e eu mesmo não lhe acho graça nem sentido. Aplaudi a mudança do plano, e aliás o novo me parece bem. Se elles não têm de ir viver na roça, e não precisam do valor da fazenda, melhor é dal-a aos libertos. Poderão estes fazer a obra comum e corresponder á boa vontade da sinhá-moça? É outra questão, mas não se me dá de a ver ou não resolvida; ha muita outra cousa neste mundo mais interessante.


19 de Abril.