Será a certeza da abolição que impele Santa-Pia a praticar esse acto, anterior de algumas semanas ou mezes ao outro? A alguem que lhe fez tal pergunta respondeu Campos que não. «Não, disse elle, meu irmão crê na tentativa do governo, mas não no resultado, a não ser o desmantelo que vae lançar ás fazendas. O acto que elle resolveu fazer exprime apenas a sinceridade das suas convicções e o seu genio violento. Elle é capaz de propor a todos os senhores a alforria dos escravos já, e no dia seguinte propor a queda do governo que tentar fazel-o por lei.»
Campos teve uma ideia. Lembrou ao irmão que, com a alforria immediata, elle prejudica a filha, herdeira sua. Santa-Pia franziu o sobrolho. Não era a ideia de negar o direito eventual da filha aos escravos; podia ser o desgosto de ver que, ainda em tal situação, e com todo o poder que tinha de dispor dos seus bens, vinha Fidelia perturbar-lhe a ação. Depois de alguns instantes respirou largo, e respondeu que, antes de morto, o que era seu era somente seu. Não podendo dissuadil-o, o desembargador cedeu ao pedido do irmão, e redigiram ambos a carta de alforria.
Retendo o papel, Santa-Pia disse:
—Estou certo que poucos delles deixarão a fazenda; a maior parte ficará commigo, ganhando o salario que lhes vou marcar, e alguns até sem nada,—pelo gosto de morrer onde nasceram.
11 de Abril.
Fidelia, quando soube do acto do pae, teve vontade de ir ter com elle, não para invetival-o, mas para abraçal-o; não lhe importam perdas futuras. O tio é que a dissuadiu dizendo-lhe que o barão ainda está muito zangado com ella.
12 de Abril.
Santa-Pia não é feio velho, nem muito velho; terá menos idade que eu. Arqueja um pouco, ás vezes, mas pode ser da bronquite. É meio calvo, largo de espaduas, as mãos asperas, cheio de corpo.