O ministério apresentou hoje á camara o projeto de abolição. É a abolição pura e simples. Dizem que em poucos dias será lei.
13 de Maio.
Emfim, lei. Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da abolição, mas confesso que senti grande prazer quando soube da votação final do senado e da sanção da Regente. Estava na rua do Ouvidor, onde a agitação era grande e a alegria geral.
Um conhecido meu, homem de imprensa, achando-me a li offereceu-me logar no seu carro, que estava na rua Nova, e ia enfileirar no cortejo organisado para rodear o paço da cidade, e fazer ovação á Regente. Estive quasi, quasi a aceitar, tal era o meu atordoamento, mas os meus habitos quietos, os costumes diplomaticos, a propria indole e a idade me retiveram melhor que as redeas do cocheiro aos cavalos do carro, e recusei. Recusei com pena. Deixei-os ir, a elle e aos outros, que se ajuntaram e partiram da rua Primeiro de Março. Disseram-me depois que os manifestantes erguiam-se nos carros, que iam abertos, e faziam grandes aclamações, em frente ao paço, onde estavam tambem todos os ministros. Se eu lá fosse, provavelmente faria o mesmo e ainda agora não me teria entendido... Não, não faria nada; meteria a cara entre os joelhos.
Ainda bem que acabámos com isto. Era tempo. Embora queimemos todas as leis, decretos e avisos, não poderemos acabar com os actos particulares, escrituras e inventarios, nem apagar a instituição da historia, ou até da poesia. A poesia falará della, particularmente naquelles versos de Heine, em que o nosso nome está perpetuo. Nelles conta o capitão do navio negreiro haver deixado trezentos negros no Rio de Janeiro, onde «a casa Gonçalves Pereira» lhe pagou cem ducados por peça. Não importa que o poeta corrompa o nome do comprador e lhe chame Gonzales Perreiro; foi a rima ou a sua má pronuncia que o levou a isso. Tambem não temos ducados, mas ahi foi o vendedor que trocou na sua lingua o dinheiro do comprador.
14 de Maio, meia noite.
Não ha alegria publica que valha uma boa alegria particular. Saí agora do Flamengo, fazendo esta reflexão, e vim escrevel-a, e mais o que lhe deu origem.
Era a primeira reunião do Aguiar; havia alguma gente e bastante animação. Rita não foi; fica-lhe longe e não dá para isto, mandou-me dizer. A alegria dos donos da casa era viva, a tal ponto que não a atribui somente ao facto dos amigos juntos, mas tambem ao grande acontecimento do dia. Assim o disse por esta unica palavra, que me pareceu expressiva, dita a brazileiros: