—Felicito-os.

—Já sabia? perguntaram ambos.

Não entendi, não achei que responder. Que era que eu podia saber já, para os felicitar, se não era o facto publico? Chamei o melhor dos meus sorrisos de acordo e complacencia, elle veiu, espraiou-se, e esperei. Velho e velha disseram-me então rapidamente, dividindo as frases, que a carta viera dar-lhes grande prazer. Não sabendo que carta era nem de que pessoa, limitei-me a concordar:

—Naturalmente.

—Tristão está em Lisboa, concluiu Aguiar, tendo voltado ha pouco da Italia; está bem, muito bem.

Comprehendi. Eis ahi como, no meio do prazer geral, pode aparecer um particular, e dominal-o. Não me enfadei com isso; ao contrario, achei-lhes razão, e gostei de os ver sinceros. Por fim, estimei que a carta do filho postiço viesse após annos de silencio pagar-lhes a tristeza que cá deixou. Era devida a carta; como a liberdade dos escravos, ainda que tardia, chegava bem. Novamente os felicitei, com ar de quem sabia tudo.


16 de Maio.

Fidelia voltou para casa, levando e deixando saudades. Os tres estão muito amigos, e os dous parecem paes de verdade; ella tambem parece filha verdadeira. O desembargador, que me contou isto, referiu-me algumas palavras da sobrinha ácerca da gente Aguiar, principalmente da velha, e acrescentou:

—Não é dessas afeições chamadas fogo de palha; nella, como nelles, tudo tem sido lento e radicado. São capazes de me roubarem a sobrinha, e ella de se deixar roubar por elles. Tambem se não forem elles, será o pae. Creio que meu irmão já vae amansando. A ultima vez que me escreveu, depois de falar muito mal do imperador e da princeza, não lhe esqueceu dizer que «agradecia as lembranças mandadas.» Fidelia não lhe mandára lembranças, estava ainda no Flamengo; eu é que as inventei na minha carta para ver o efeito que produziriam nelle. Hade amansar; isto de filhos, conselheiro, não imagina, é o diabo; eu, se perdesse o meu Carlos, creio que me ia logo desta vida.