17 de Maio.

Vou ficar em casa uns quatro ou cinco dias, não para descançar, porque eu não faço nada, mas para não ver nem ouvir ninguem, a não ser o meu creado José. Este mesmo, se cumprir, mandal-o-hei á Tijuca, a ver se eu lá estou. Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio que esta proporção não é obra dos outros, e só minha exclusivamente. Velhice esfalfa.


18 de Maio.

Rita escreveu-me pedindo informações de um leiloeiro. Parece-me caçoada. Que sei eu de leiloeiros nem de leilões? Quando eu morrer podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem elle, e a minha pelle com o resto; não é nova, não é bella, não é fina, mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rustico. Não é preciso chamar um leiloeiro.

Vou responder isto mesmo á mana Rita, acrescentando algumas noticias que trouxe da rua,—a carta do Tristão, por exemplo, os agradecimentos do barão á filha, e esta grande peta: que a viuva resolveu casar commigo... Mas não; se lhe digo isto, ella não me crê, ri, e vem cá logo. Justamente o que eu não desejo. Preciso de me lavar da companhia dos outros, ainda mesmo della, apezar de gostar della. Mando-lhe só dizer que o leiloeiro morreu; provavelmente ainda vive, mas hade morrer algum dia.


21 de Maio.

Hontem escrevi á mana Rita anunciando-lhe a morte do homem, e hoje de manhã abrindo os jornaes, dei com a noticia de haver falecido hontem o leiloeiro Fernandes. Chamava-se Fernandes. Sucumbiu a não sei que molestia grega ou latina. Parece que era bom chefe de familia, honrado e laborioso, e excelente cidadão; a Vida Nova chama-lhe grande, mas talvez elle votasse com os liberaes.