Mana Rita, já pela minha carta, já pelas noticias de hoje, correu a ter commigo. Senhoras não deviam escrever cartas; raras dizem tudo e claro; muitas tem a linguagem escassa ou escura. Rita pedira-me noticias do leiloeiro, por lhe dizerem que elle morava no Cattete, e adoecera gravemente ha dias. Como era meu visinho, podia ser que eu soubesse delle: foi o motivo da pergunta, mas esqueceu dizel-o.

Hesitei entre confessar a minha invenção ou deixal-a encoberta pela coincidencia, mas foi só um minuto, nem isso, foi um instante. Rita é minha irmã, não me ficaria querendo mal e acabaria rindo tambem. Ouviu a minha verdade, sem zanga, mas tambem sem riso. A razão disto é um pormenor, que não vale a pena dizer miudamente e só o bastante para explicar a carta e a seriedade. Trata-se de contas entre ella e o finado, objetos que ella mandou vender, e não sabe se elle vendeu ou não, nem como havel-os ou o dinheiro; bastará ir ao armazem. Hade haver escrituração donde conste tudo; prometi acompanhal-a amanhã. Ficou satisfeita, começou então a sorrir, depois disse-me os objetos que eram, quadros velhos, romances lidos.

Jantou commigo. Antes de irmos para a meza, vimos passar o enterro do Fernandes. Teve a pachorra de contar os carros; ai de mim, tambem eu os contava em pequeno; ella é que parece não haver perdido esse costume estatistico. O Fernandes levava trinta e sete ou trinta e oito carros.

Deixo aqui esta pagina com o fim unico de me lembrar que o acaso tambem é corregedor de mentiras. Um homem que começa mentindo disfarçada ou descaradamente acaba muita vez exato e sincero.


22 de Maio.

Em caminho, mana Rita contou-me o que já sabe da carta de Tristão e da resposta que D. Carmo lhe mandou. Sabe mais que eu. D. Carmo leu-lhe as duas cartas. Tristão pede mil desculpas do longo silencio de annos e lança-o á conta de tarefas e distrações. Ultimamente, já formado em medicina, foi em viagem a varias terras, onde viu e estudou muito. Não podendo escrever as viagens, contar-lh'as-ha um dia, se cá vier. Pede noticias della e do padrinho, pede-lhes os retratos, e manda-lhes pelo correio umas gravuras; assim tambem lembranças do pae e da mãe que estão em Lisboa. A carta é longa, cheia de ternuras e saudades. A resposta, disse-me mana Rita que é em tom verdadeiramente maternal. Não sabe mostrar-se magoada; é toda perdão e carinho. Só lhe faz uma queixa; é que, pedindo os retratos della e do marido, não lhe mandasse logo o seu, o ultimo dos seus, porque os antigos cá estão. Diz muitas cousas longas, lembra os tempos de infancia e de estudo, e no fim insinua-lhe que venha contar-lhe as viagens. As gravuras são da casa Goupil.

Rita esteve com ella no dia 15, entre uma e duas horas da tarde, depois que a viuva saiu de lá para a casa do tio desembargador. Apezar da separação desta e suas saudades, sentia-se alegre com a afeição que cresce entre ambas, e igualmente alegre com a resurreição do afilhado. Chama-lhe resurreição por imaginar que o moço inteiramente os esquecera. Via agora que não, e parecia-lhe a mesma alma daqui saída. Falando ou calando, tinha intervalos de melancolia, e, de uma vez, acha mana Rita que lhe viu apontar uma lagrima, uma pequenina lagrima de nada...


23 de Maio.