—Nem uma cousa nem outra.
—Não zombe, conselheiro.
—Não zombo, minha senhora. Viuva não lhe convem, assim tão verde; cazada, sim, mas com quem, a não ser commigo?
—Tinha justamente pensado no senhor.
Peguei-lhe nas mãos, e enfiamos os olhos um no outro, os meus a tal ponto que lhe rasgaram a testa, a nuca, o dorso do canapé, a parede e foram pousar no rosto do meu criado, unica pessoa existente no quarto, onde eu estava na cama. Na rua apregoava a voz de quasi todas as manhãs: «Vae... vassouras! vae espanadores!»
Comprehendi que era sonho e achei-lhe graça. Os pregões foram andando, emquanto o meu José pedia desculpa de haver entrado, mas eram nove horas passadas, perto de dez. Fui ás minhas abluções, ao meu café, aos meus jornaes. Alguns destes celebram o anniversario da batalha de Tuyuty. Isto me lembra que, em plena diplomacia, quando lá chegou a noticia daquella victoria nossa, tive de dar esclarecimentos a alguns jornalistas estranjeiros sequiosos de verdade. Vinte annos mais, não estarei aqui para repetir esta lembrança; outros vinte, e não haverá sobrevivente dos jornalistas nem dos diplomatas, ou raro, muito raro; ainda vinte, e ninguem. E a terra continuará a girar em volta do sol com a mesma fidelidade ás leis que os regem, e a batalha de Tuyuty, como a das Thermopylas, como a de Iena, bradará do fundo do abismo aquella palavra da prece de Renan: «Ó abismo! tu és o deus unico!»
Ahi fica um desconcerto acabando em desconsolo,—tudo para annotar pouco mais que nada. Posso dizer com D. Francisco Manuel: «Eu de meu natural sou miudo e prolixo; o estar só e a melancolia, que de si é cuidadosa...» Ahi deixo uma pagina feita de duas, ambas contrarias e filhas da mesma alma de sexagenario desenganado e guloso. Ao cabo, nem tão guloso nem tão desenganado. Conversações do papel e para o papel.
26 de Maio.
Aqui ficam os sinaes do sujeito mordido pela viuva Noronha. Vinte e oito annos, solteiro, advogado do Banco do Sul, donde lhe vieram as relações com o gerente Aguiar; boa feição, boas maneiras, acaso timido. É filho de um antigo lavrador do Norte, que rezide agora no Recife. Dizem que tem muito talento e grande futuro. Chama-se Osorio.