27 de Julho.

Vi hoje o Tristão descendo a rua do Ouvidor com o Aguiar; adivinhei-o por este e pelo retrato. Trazia no vestuario alguma cousa que, apezar de não diferir da moda, cá e lá, lhe põe certo geito particular e proprio. Aguiar aprezentou-nos. Tristão falou-me polidamente, e com tal ou qual curiosidade, não ouso dizer interesse. Naturalmente já ouviu falar de mim em casa delles. Cinco minutos de conversação apenas,—o bastante para me dizer que está encantado com o que tem visto. Creio que seja assim, porque eu amo a minha terra, apezar das ruas estreitas e velhas; mas tambem eu desembarquei em terras alheias, e usei igual estilo. Entretanto, esta cidade é a delle, e, como eu lhe dissesse que não devera ter esquecido o Rio de Janeiro, donde saíra adolescente, respondeu que era assim mesmo, não esquecera nada. O encanto vinha justamente da sensação de cousas vistas, uma resurreição que era continuidade, se assim resumo o que elle me disse em vocábulos mais simples que estes. Cinco minutos e despedimo-nos.

É uma bonita figura. A palavra forte, sem ser aspera. Os olhos vives e lepidos, mas talvez a brevidade do encontro e da aprezentação os obrigasse a essa expressão unica; possivelmente os terá de outra maneira alguma vez. É antes alto que baixo, e não magro. A certa distancia, ia eu a voltar a cabeça para vel-o ainda, mas recuei a tempo; seria indiscreto e apressado, e talvez não valesse a pena. Irei uma destas noites ao Flamengo. Ha já tres semanas que não apareço lá.


28 de Julho.

Não duvido que o Tristão visse com prazer o Rio de Janeiro. Quaesquer que sejam os costumes novos e ligações de familia, e por maior que tenha sido a ausencia, o logar onde alguem passou os primeiros annos hade dizer á memoria e ao coração uma linguagem particular. Creio que elle esteja realmente encantado, como me disse hontem. Demais, lá fora ouvia a mesma lingua daqui; a mãe é a mesma paulista que o gerou e levou comsigo, e está agora em Lisboa, com o pae, ambos velhos.

Eu nunca esqueci cousas que só vi em menino. Ainda agora vejo dous sujeitos barbados que jogavam o entrudo, teria eu cinco annos; era com bacias de madeira ou de metal, ficaram inteiramente molhados e foram pingando para as suas cazas. Só não me acode onde ellas eram. Outra cousa que igualmente me lembra, apezar de tantos annos passados, é o namoro de uma visinha e de um rapaz. Ella morava defronte, era magrinha e chamava-se Flor. Elle tambem era magro e não tinha nome conhecido; só lhe sabia a cara e a figura. Vinha ás tardes e passava tres, quatro, cinco e mais vezes de uma ponta á outra da rua. Uma noite ouvimos gritos. Na manhã seguinte ouvi dizer que o pae da moça mandára dar por escravos uma sova de páu no namorado. Dias depois foi este recrutado para o exercito, dizem que por empenho do pae da moça; alguns creram que a sova fôra um simples desforço eleitoral. Tudo é um; amor ou eleições, não falta materia ás discordias humanas.

Que valem taes ocurrencias agora, neste anno de 1888? Que pode valer a loja de um barbeiro que eu via por esse tempo, com sanguesugas á porta, dentro de um grosso frasco de vidro com agua e não sei que massa? Ha muito que se não deitam bichas a doentes; ellas, porém, cá estão no meu cerebro, abaixo e acima, como nos vidros. Era negocio dos barbeiros e dos farmaceuticos, creio; a sangria é que era só dos barbeiros. Tambem já se não sangra pessoa nenhuma. Costumes e instituições, tudo perece.


31 de Julho.