31 de Agosto.
Como eu ainda gosto de musica! A noite passada, em casa do Aguiar, eramos algumas pessoas... Treze! Só agora, ao contar de memoria os presentes, vejo que eramos treze; ninguem deu então por este numero, nem na sala, nem á meza do chá de familia. Conversámos de cousas varias, até que Tristão tocou um pouco de Mozart, ao piano, a pedido da madrinha.
A execução veiu por que faiamos tambem de musica, assunto em que a viuva acompanhou o recem-chegado com tal gosto e discrição, que elle acabou pedindo-lhe que tocasse tambem. Fidelia recusou modestamente, elle insistiu, D. Carmo reforçou o pedido do afilhado, e assim o marido; Fidelia acabou cedendo, e tocou um pequeno trecho, uma reminiscencia de Schumann. Todos gostámos muito. Tristão voltou ainda uma vez ao piano, e pareceram apreciar os talentos um do outro. Eu saí encantado de ambos. A musica veiu commigo, não querendo que eu dormisse. Cheguei cedo a caza, onze horas, e só perto de uma comecei a conciliar o somno; todo o tempo da rua, da caza e da cama foi consumido em repetir trechos e trechos que ouvira na minha vida.
A musica foi sempre uma das minhas inclinações, e, se não fosse temer o poetico e acaso o patetico, diria que é hoje uma das saudades. Se a tivesse aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe? Não me quiz dar a ella, por causa do oficio diplomatico, e foi um erro. A diplomacia que exerci em minha vida era antes função decorativa que outra cousa; não fiz tratados de comercio nem de limites, não celebrei alianças de guerra; podia acomodar-me ás melodias de sala ou de gabinete. Agora vivo do que ouço aos outros.
Ha dous ou tres mezes ouvi dizer a Fidelia que nunca mais tocaria, tendo desde muito suspendido o exercicio da musica. Repliquei-lhe então que um dia, a sós comsigo, tocaria para recordar, e a recordação traria o exercicio outra vez. Hontem bastaram as instancias da gente Aguiar para mover uma vontade já disposta, ao que parece. O exemplo de Tristão ajudou-a a sair do silencio. Repito que saí de lá encantado de ambos.
Quem sabe se a esta hora (dez e meia da manhã) não estará ella em caza, com espanto da familia e da visinhança, deante do piano aberto, a começar alguma cousa que não toca ha muito?
—Não é possível!
—Nhanhã Fidelia!
—A viuva Noronha!