—Hade ser alguma amiga.

E as mãos della irão falando, pensando, vivendo aquellas notas que a memoria humana guarda impressas. Provavelmente tocará como hontem, sem musica, de cór, na ponta dos dedos...


Seis horas da tarde.

Antes de ir para a meza, escrevo a confirmação de que conjeturei de manhã; Fidelia efectivamente acordou os ecos da casa e da rua. Contou-m'o ha pouco o proprio desembargador Campos. A diferença é que não foi ás dez horas e meia, mas ás sete. Campos estava ainda na cama, quando ouviu os primeiros acordes de uma composição conhecida, parece que italiana. Não chegou a crer que fosse ella, mas não podia ser outra pessoa. Um creado, chamado por elle, veiu dizer-lhe que sim, que era ella mesma. Tocou algum tempo. Quando elle entrou na sala, tinha acabado, mas estava ainda ao piano, ante um folheto de musicas aberto, a soletrar para si.

—Que é isto? perguntou-lhe.

—Ouviu tocar? disse ella fazendo rodar o banco.

—Ouvi.

—Creio que desaprendi alguma cousa; sinto os dedos um pouco tolhidos, já os senti assim hontem, a composição é que me não esqueceu.

—Mas que resurreição é esta?