—Mana, você está a querer fazer commigo a aposta de Deus e de Mephistopheles; não conhece?

—Não conheço.

Fui á minha pequena estante e tirei o volume do Fausto, abri a pagina do prologo no ceu, e li-lh'a, resumindo como pude. Rita escutou atenta o desafio de Deus e do Diabo, a proposito do velho Fausto, o servo do Senhor, e da perda infalivel que faria delle o astuto. Rita não tem cultura, mas tem finura, e naquella ocasião tinha principalmente fome. Replicou rindo:

—Vamos almoçar. Não quero saber desses prologos nem de outros; repito o que disse, e veja você se refaz o que lá vae desfeito. Vamos almoçar.

Fomos almoçar; ás duas, horas Rita voltou para Andarahy, eu vim escrever isto e vou dar um giro pela cidade.


12 de Janeiro.

Na conversa de ante-hontem com Rita esqueceu-me dizer a parte relativa a minha mulher, que lá está enterrada em Vienna. Pela segunda vez falou-me em transportal-a para o nosso jazigo. Novamente lhe disse que estimaria muito estar perto della, mas que, em minha opinião, os mortos ficam bem onde caem; redarguiu-me que estão muito melhor com os seus.

—Quando eu morrer, irei para onde ella estiver, no outro mundo, e ella virá ao meu encontro, disse eu.

Sorriu, e citou o exemplo da viuva Noronha que fez transportar o marido de Lisboa, onde faleceu, para o Rio de Janeiro, onde ella conta acabar. Não disse mais sobre este assunto, mas provavalmente tornará a elle, até alcançar o que lhe parece. Já meu cunhado dizia que era seu costume della, quando queria alguma cousa.