—Não me atrevi, por não conhecer bem a arte de figura; no colegio pintava flores e paizagens, algum pedaço de mar ou de ceu. Se não fosse isso, tirava o retrato de D. Carmo.

D. Carmo confirmou:

—Eu pedi-lhe que pintasse Tristão neste quadro e ella respondeu-me a mesma cousa.

Aceitei a razão, aceitei uma cadeira vaga que ali estava, e pedi á viuva que continuasse a obra. Queria vel-a pintar. Na Europa tinha assistido ao trabalho de alguns artistas homens; era a primeira vez que uma senhora pintava deante de mim. Fidelia dispoz-se e continuou. Após alguns minutos os tres falavamos de varias cousas. A viuva estava em toda a graça do costume, sem nenhum ar petulante que porventura pudesse tirar do exercicio; pintava modestamente. Alguma vez interrompia o trabalho, ou para ouvir melhor, ou para dizer mais longo,—e logo tornava ao pincel e á tela.

Ao cabo de alguns minutos cuidava eu de sair, quando vi aparecer á porta da casa nada menos que Tristão. A porta é larga, dá para um saguão, donde se comunica para cima por dous pequenos lanços de degráos, tecto baixo. Tristão vinha de concluir a correspondencia que vae mandar para o correio, segundo soube logo depois, e tornava ao logar em que estivera, ao pé das duas. Mandou vir cadeira; a que eu ocupava era a que elle ocupava antes, e não havia outra. Talvez estes pormenores não tenham valor, mas cabem aqui para o fim de acentuar bem que Tristão estava com ellas antes da minha chegada, e para lembrar que antes de vir a cadeira me consultou acerca da pintora; respondi o que cumpria.

—Não é? disse elle contente do meu apoio.

E acrescentou algumas palavras de louvor, calidas, sinceras de certo, que a viuva apreciou comsigo naturalmente; não as contestou, tambem não sorriu como sucede quando a gente aprova interioramente uma cousa que lhe vae bem com a alma. Ouviu pintando, recuando ou chegando, e deitando os olhos para longe. Quando os encaminhou para elle (já então sentado) não esperou que Tristão afastasse os seus; encontrou-os e deixou-os ficar onde estavam, indo continuar a marinha com tanta atenção que era como se nós outros não falássemos de nada, e nós falavamos de muita cousa, elle acaso menos, para ver melhor a pintura.

Aquelle silencio de Fidelia, em contraste com a palestra de pouco antes, pareceu-me indicar que ella considerava a obra em atrazo. Tambem podia ser que o amor da arte a retivesse agora mais que a principio, e a convidasse a pintar exclusivamente. A causa secreta de um acto escapa muita vez a olhos agudos, e muito mais aos meus que perderam com a idade a natural agudeza; mas creio que seria uma daquellas, e não ha razão para descrer que fossem ambas successivamente.

Quem parecia contente de tudo, palavras e silencios, era a dona da casa. Posto me désse a principal atenção, não o fazia em maneira que esquecesse a tela e os filhos. Mirava a tela e falava aos filhos com a ternura velha que já estou cançado de notar, e talvez a ternura fosse agora maior que de outras vezes; pelo menos, trazia certo alvoroço como de alma que soletra uma felicidade nova ou inesperada; não digo tudo para me não arriscar a engano.

A verdade é que eu, que pensára em sair, fui ficando, ficando, até que a viuva Noronha suspendeu o trabalho; tinha passado quasi uma hora. Confessou que estava cançada, e cuidou de recolher os pinceis e cobrir a pintura, ajudada nisso pelo moço Tristão, que o fazia com a mesma graça que ella, e um dezejo de bem servir, que é a alma da polidez. Eu, além de velho, não podia deixar a boa Carmo, que só os ajudou com os olhos, e ajudou-os bem; iam de um para outro, não só alegres, mas ainda interrogativos. Elles acabaram tudo e vieram sentar-se deante de nós, um cheio de riso, outra não cheia, mas tocada apenas do seu, que era igualmente agradecido e bom.