[CAPITULO XCV]

Flores de antanho

Onde estão ellas as flores de antanho? Uma tarde, apoz algumas semanas de gestação, esboroou-se todo o edificio das minhas chimeras paternaes. Foi-se o embryão, naquelle ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a noticia por boca do Lobo Neves, que me deixou na sala, e acompanhou o medico á alcova da frustrada mãe. Eu encostei-me á janella, a olhar para a chacara, onde verdejavam as laranjeiras sem flores. Onde iam ellas as flores de antanho?


[CAPITULO XCVI]

A carta anonyma

Senti tocar-me no hombro; era o Lobo Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos, inconsolaveis. Indaguei de Virgilia, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; elle leu-a, empallideceu muito, e fechou-a com a mão tremula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quizesse atirar-se sobre mim; mas não me lembra bem. O que me lembra claramente é que durante os dias seguintes recebeu-me frio e taciturno. Emfim, Virgilia contou-me tudo, dahi a dias na Gamboa.

O marido mostrou-lhe a carta, logo que ella se restabeleceu. Era anonyma e denunciava-nos. Não dizia tudo; não falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a precavel-o contra a minha intimidade, e accrescentava que a suspeita era publica. Virgilia leu a carta e disse com indignação que era uma calumnia infame.

—Calumnia? perguntou o Lobo Neves.