—Infame.
O marido respirou; mas, tornando á carta, parece que cada palavra della lhe fazia com o dedo um signal negativo, cada lettra bradava contra a indignação da mulher. Esse homem, aliás intrepido, era agora a mais fragil das creaturas. Talvez a imaginação lhe mostrou, ao longe, o famoso olho da opinião, a fital-o sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez uma boca invisivel lhe repetiu ao ouvido as chufas que elle escutara ou dissera outr'ora. Instou com a mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virgilia comprehendeu que estava salva; mostrou-se irritada com a insistencia, jurou que da minha parte só ouvira palavras de gracejo e cortezia. A carta havia de ser de algum namorado sem ventura. E citou alguns,—um que a galanteára francamente, durante algumas semanas, outro que lhe escrevera uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com circumstancias, estudando os olhos do marido, e concluiu dizendo que, para não dar margem á calumnia, tratar-me-hia de maneira que eu não voltaria lá.
Ouvi tudo isto um pouco turbado, não pelo accrescimo de dissimulação que era preciso empregar de ora em diante, até afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela tranquillidade moral de Virgilia, pela falta de commoção, de susto, de saudades, e até de remorsos. Virgilia notou a minha preoccupação, levantou-me a cabeça, porque eu olhava então para o soalho, e disse-me com certa amargura:
—Você não merece os sacrificios que lhe faço.
Não lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria á nossa situação o sabor caustico dos primeiros dias; mas se lh'o dissesse, não é impossivel que ella chegasse lenta e artificiosamente até esse pouco de desespero e terror. Não lhe disse nada. Ella batia nervosamente com a ponta do pé no chão; aproximei-me e beijei-a na testa. Virgilia recuou, como se fosse um beijo de defuncto.
[CAPITULO XCVII]
Entre a boca e a testa
Sinto que o leitor estremeceu,—ou devia estremecer. Naturalmente a ultima palavra suggeriu-lhe tres ou quatro reflexões. Veja bem o quadro: n'uma casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam ha muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadaver. Ha ahi, no breve intervallo, entre a boca e a testa, antes do beijo e depois do beijo, ha ahi largo espaço para muita cousa,—a contracção de um resentimento,—a ruga da desconfiança,—ou emfim o nariz pallido e somnolento da saciedade...