Marcella abanou a cabeça com um ar de lastima:
—Não percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te não molestar? Vem cá, chiquito, não sejas assim desconfiado commigo... Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia, quando nos separarmos...
—Não digas isso! bradei eu.
—Tudo cessa! Um dia...
Não pôde acabar; um soluço estrangulou-lhe a voz; estendeu as mãos, tomou das minhas, conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao ouvido:—Nunca, nunca, meu amor! Eu agradeci-lh'o com os olhos humidos. No dia seguinte levei-lhe o collar que havia recusado.
—Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.
Marcella teve primeiro um silencio indignado; depois fez um gesto magnifico: tentou atirar o collar á rua. Eu retive-lhe o braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a joia. Sorriu e ficou.
Entretanto, pagava-me á farta os sacrificios; espreitava os meus mais reconditos pensamentos; não havia desejo a que não acudisse com alma, sem esforço, por uma especie de lei da consciencia e necessidade do coração. Nunca o desejo era razoavel, mas um capricho puro, uma criancice, vel-a trajar de certo modo, com taes e taes enfeites, este vestido e não aquelle, ir a passeio ou outra cousa assim, e ella cedia a tudo, risonha e palreira.
—Você é das Arabias, dizia-me.
E ia pôr o vestido, a renda, os brincos, com uma obediencia de encantar.