[CAPITULO XVI]

Uma reflexão immoral

Occorre-me uma reflexão immoral, que é ao mesmo tempo uma correcção de estylo. Cuido haver dito, no cap. XIII, que Marcella morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer assim o affirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista na grammatica. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal commercio dos corações. Esta é a reflexão immoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que immoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bella testa do mundo não fica menos bella, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bella, nem menos amada. Marcella, por exemplo, que era bem bonita, Marcella amou-me...


[CAPITULO XVII]

Do trapezio e outras cousas

... Marcella amou-me durante quinze mezes e onze contos de réis; nada menos. Meu pae, logo que teve aragem dos onze contos, sobresaltou-se devéras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.

—Desta vez, disse elle, vaes para a Europa; vaes cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem serio e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:—Gatuno, sim, senhor; não é outra cousa um filho que me faz isto...

Saccou da algibeira os meus titulos de divida, já resgatados por elle, e sacudiu-m'os na cara;—Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhámos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juizo, ou ficas sem cousa nenhuma.