Estava furioso; mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada oppuz á ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava, a idéa de levar Marcella commigo. Fui ter com ella; expuz-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcella ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a Europa.
—Porque não?
—Não posso, disse ella com ar dolente; não posso ir respirar aquelles ares, emquanto me lembrar de meu pobre pae, morto por Napoleão...
—Qual delles: o hortelão ou o advogado?
Marcella franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lh'o a mucama, n'uma salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcella offereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o liquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ella era um monstro, que jámais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcella deixára-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de marmore. Tive impetos de a estrangular, de a humiliar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazel-o; mas a acção trocou-se n'outra; fui eu que me atirei aos pés della, contricto e supplice; beijei-lh'os, recordei aquelles mezes da nossa felicidade solitaria, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos della, apertando-lhe muito as mãos; offegante, desvairado, pedi-lhe com lagrymas que me não desamparasse... Marcella esteve alguns instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:
—Não me aborreça, disse.
Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova.—Não! bradei eu; não has de entrar... não quero... Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde; ella entrára e fechara-se.
Sahi desatinado; gastei duas mortaes horas a vaguear pelos bairros mais excentricos e desertos, onde fosse difficil dar commigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma especie de gula morbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delirio, e ora me comprazia em crer que elles eram eternos, que tudo aquillo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeital-os de mim, como um fardo inutil. Então resolvia embarcar immediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéa de que Marcella, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ella amara-me a tonta, devia de sentir alguma cousa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte... Nisto, o dente do ciume enterrava-se-me no coração; e toda a natureza me bradava que era preciso levar Marcella commigo.
—Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.
Emfim, tive uma idéa salvadora... Ah! trapezio dos meus peccados, trapezio das concepções abstrusas! A idéa salvadora trabalhou nelle, como a do emplasto (cap. II.). Era nada menos que fascinal-a, fascinal-a muito, deslumbral-a, arrastal-a; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto do que a supplica. Não medi as consequencias; recorri a um derradeiro emprestimo; fui á rua dos Ourives, comprei a melhor joia da cidade, tres diamantes grandes, encastoados n'um pente de marfim; corri á casa de Marcella.