Marcella estava reclinada n'uma rede, o gesto molle e cançado, uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pésinho calçado de meia de seda, os cabellos soltos, derramados, o olhar quieto e somnolento.

—Vem commigo, disse eu, arranjei recursos...temos muito dinheiro, terás tudo o que quizeres...Olha, toma.

E mostrei-lhe o ponte com os diamantes. Marcella teve um leve sobresalto; a pupilla rutilou como a de um gavião faminto; ella ergueu metade do corpo, e, apoiada n'um cotovello, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabellos, colligi-os, enlacei-os á pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as do um lado, busquei alguma symetria naquella desordem, tudo com unia minuciosidade e um carinho de mãe.

—Prompto, disse eu.

—Doudo! foi a sua primeira resposta.

A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrificio com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a materia e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de reprehensão:

—Ora você! dizia.

—Vens commigo?

Marcella reflectiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia; mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ella me respondeu resolutamente:

—Vou. Quando embarcas?