Subito ouço uma voz:—Olá, meu rapaz, isto não é vida! Era meu pae, que chegava com duas propostas na algibeira. Sentei-me no bahú e recebi-o sem alvoroço. Elle esteve alguns instantes de pé, a olhar para mim; depois estendeu-me a mão com um gesto commovido:

—Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.

—Já me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mão.

Não tinha almoçado; almoçámos juntos. Nenhum de nós alludiu ao triste motivo da minha reclusão. Uma só vez fallámos nisso, de passagem, quando meu pae fez recahir a conversa na Regencia; foi então que alludiu á carta de pezames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta comsigo, já bastante amarrotada, talvez por havel-a lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que era de um dos Regentes. Leu-m'a duas vezes.

—Já lhe fui agradecer este signal de consideração, concluiu meu pae, e acho que deves ir tambem...

—Eu?

—Tu; é um homem notavel, faz hoje as vezes de Imperador. Demais trago commigo uma idéa, um projecto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous projectos, um logar de deputado e um casamento.

Meu pae disse isto com pausa, e não no mesmo tom, mas dando ás palavras um geito e disposição, cujo fim era caval-as mais profundamente no meu espirito. A proposta, porém, desdizia tanto das minhas sensações ultimas, que eu cheguei a não entendel-a bem. Meu pae não fraqueou e repetiu-a; encareceu o logar e a noiva.

—Aceitas?

—Não entendo de politica, disse eu depois de um instante; quanto á noiva... deixe-me viver como um urso, que sou.