—Quantos lhe dá?
—Dezesete.
—Menos um.
—Dezeseis. Pois então! é uma moça.
Não pôde Eugenia encobrir a satisfação que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se logo, e ficou como d'antes, erecta, fria e muda. Na verdade, ella parecia ainda mais mulher do que era; seria criança nos seus folgares de moça; mas assim quieta, impassivel, tinha a compostura da mulher casada. Talvez essa circumstancia lhe diminuia um pouco da graça virginal. Depressa nos familiarisámos; a mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra; e ella sorria, com os olhos fulgidos, como se lá dentro do cerebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de azas de ouro e olhos de diamante...
Digo lá dentro, porque cá fóra o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que subitamente penetrou na varanda, e começou a bater as azas em derredor de D. Eusebia. D. Eusebia deu um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas:—T'esconjuro!... sáe, diabo!... Virgem Nossa Senhora!...
—Não tenha medo, disse eu; e, tirando o lenço, expelli a borboleta. D. Eusebia sentou-se outra vez, offegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que pallida de medo, dissimulava a impressão com muita força de vontade. Apertei-lhes a mão e saí, a rir commigo da superstição das duas mulheres, um rir philosophico, desinteressado, superior. De tarde, vi passar a cavallo a filha de D. Eusebia, seguida de um pagem; fez-me um comprimento com a ponta do chicote; e confesso que me lisongeei com a idéa de que, alguns passos adeante, ella voltaria a cabeça para traz; mas não voltou.