—Só isto.

Fomos dalli á casa do Dutra. Era uma perola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males publicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era legitima; convinha, porém, esperar alguns mezes. E logo me apresentou á mulher,—uma estimavel senhora,—e á filha, que não desmentiu em nada o panegyrico de meu pae. Juro-vos que em nada. Relêde o Cap. XXVIII. Eu, que levava idéas a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ella, que não sei se as tinha, não me fitou de modo differente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mez estavamos intimos.


[CAPITULO XXXVIII]

A quarta edição

—Venha cá jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.

Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no largo de S. Francisco de Paula, e fui dar varias voltas. Lembra-vos ainda a minha theoria das edições humanas? Pois sabei que, naquelle tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no typo, que era elegante, e na encadernação, que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela rua dos Ourives, consulto o relogio e cáe-me o vidro na calçada. Entro na primeira loja que tinha á mão; era um cubiculo,—pouco mais,—empoeirado e escuro.

Ao fundo, por traz do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarello e bexiguento não se destacava logo, á primeira vista; mas logo que se destacava era um expectaculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrario, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce, destruiram-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terriveis; os signaes, grandes e muitos, faziam saliencias e encarnas, declives e acclives; e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que eu comecei a fallar. Quanto ao cabello, penteado ao desdem, estava ruço e quasi tão poento como os portaes do loja. N'um dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crel-o-heis, posteros? essa mulher era Marcella.

Não a conheci logo; era difficil; ella porém conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um movimento como para esconder-se ou fugir; era o instincto da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcella accommodou-se e sorriu.

—Quer comprar alguma cousa? disse ella estendendo-me a mão.