Não respondi nada; Marcella comprehendeu a causa do meu silencio (não era difficil), e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava mais, se o assombro do presente, se a memoria do passado. Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, fallou-me longamente de si, da vida que levára, das lagrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, emfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a molestia, adiantando-lhe a decadencia. Verdade é que tinha a alma decrepita. Vendera tudo, quasi tudo; um homem, que a amára outr'ora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquella loja de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja—talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lhe contasse a minha vida. Gastei pouco tempo em dizer-ll'a; não era longa, nem interessante.
—Casou? disse Marcella no fim de minha narração.
—Ainda não, respondi seccamente.
Marcella lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflecte ou relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo por que motivo fizera tanto desatino. Não era esta certamente a Marcella de 1822; mas a belleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrificios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcella. O rosto dizia-me que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outr'ora, como hoje, ardia nelles a flamma da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lh'a; eram olhos da primeira edição.
—Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? porguntou ella, saindo daquella especie de torpor.
—Não, suppunha entrar n'uma casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este relogio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.
Marcella suspirou com tristeza. A verdade é que eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e anciava por me ver fóra daquella casa. Marcella, entretanto, chamou um moleque, deu-lhe o relogio, e, apezar da minha opposição, mandou-o, a uma loja na visinhança, comprar o vidro. Não havia remedio; sentei-me outra vez. Disse ella então que desejava ter a protecção dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais cedo era natural que me casasse, e afiançou que me daria finas joias por preços baratos. Não disse preços baratos, mas usou uma metaphora delicada e transparente. Entrei a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo a molestia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que negociava com o unico fim de acudir á paixão do lucro, que era o verme roedor daquella existencia; foi isso mesmo que me disseram depois.