Não foi alegre o almoço; eu proprio estava a caír de somno. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossivel; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquella, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vinculo, além de uma phantasia passageira, alguma obediencia e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigilia; era despeito, um despeitosinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquilla das auroras.

Mas eu era moço, tinha o remedio em mim mesmo. Meu pae é que não pôde supportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as ultimas dores, é positivo. Morreu dahi a quatro mezes,—acabrunhado, triste, com uma preoccupação intensa e continua, á semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os rheumatismos e tosses. Teve ainda uma meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe,—lembra-me bem,—vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de luz, que era, por assim dizer, o ultimo lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum logar alto, como aliás me cabia.

—Um Cubas!

Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a sciencia dos medicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de morrer, morreu.

—Um Cubas!


[CAPITULO XLV]

Notas

Soluços, lagrimas, casa armada, velludo preto nos portaes, um homem que veiu vestir o cadaver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, eça, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão á familia, alguns tristes, todos serios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d'agua benta, o fechar do caixão, a prego e martello, seis pessoas que o tomam da eça, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lagrimas da familia, e vão até o coche funebre, e o collocam em cima, e traspassam e apertam as corrêas, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples inventario, eram notas que eu havia tomado para um capitulo extremamente succulento, em que provava que a terra deve continuar a girar em volta do sol; porquanto:—a) a natureza não inventou a morte, senão com o fim de dar vida a algumas industrias,—armadores, segeiros, emprezas funerarias, typographias, e outras que ella sagazmente previu;—b) mortas essas industrias, pela ausencia da morte humana, não é improvavel que viessem a morrer os respectivos industriaes; o que dava na mesma. Mas tudo isto são apenas notas de um capitulo, que não escrevo.