[CAPITULO XLVI]

A herança

Veja-nos agora o leitor, oito dias depois da morte de meu pae,—minha irmã sentada n'um sophá,—pouco adiante, o Cotrim, de pé, encostado a um consolo, com os braços cruzados e a morder o bigode,—eu a passeiar de um lado para outro, com os olhos no chão. Luto pezado. Profundo silencio.

—Mas afinal, disse o Cotrim; esta casa pouco mais póde valer de trinta contos; demos que valha trinta e cinco...

—Vale cincoenta, ponderei; a Sabina sabe que custou cincoenta e oito...

—Podia custar até sessenta, tornou o Cotrim; mas não se segue que os valesse, e menos ainda que os valha hoje. Você sabe que as casas, aqui ha annos, baixaram muito. Olhe, se esta vale os cincoenta contos, quantos não vale a que você deseja para si, a do Campo?

—Não fale nisso! Uma casa velha.

—Velha! exclamou Sabina, levantando as mãos ao tecto.

—Parece-lhe nova, aposto?

—Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do sophá; podemos arranjar tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, o Cotrim não aceita os pretos, quer só o boleeiro de papae e o Paulo...