Era tão sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri; peguei na mão de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com tão boa sombra, que o Cotrim interpretou o gesto como de acquiescencia, e agradeceu-m'o.
—Que é lá? redargui; não cedi cousa nenhuma, nem cedo.
—Nem cede?
Abanei a cabeça.
—Deixa, Cotrim, disse minha irmã ao marido; vê se elle quer ficar tambem com a nossa roupa do corpo; é só o que falta.
—Não falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe, é muito mais summario citar-nos a juizo e provar com testemunhas que Sabina não é sua irmã, que eu não sou seu cunhado, e que Deus não é Deus. Faça isto, e não perde nada, nem uma colherinha. Ora, meu amigo, outro officio!
Estava tão agastado, e eu não menos, que entendi offerecer um meio de conciliação; dividir a prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o assucareiro; e depois desta pergunta, declarou que teriamos tempo de liquidar a pretenção, quando menos em juizo. Entretanto, Sabina fôra até á janella que dava para a chacara,—e depois de um instante, voltou, e propoz ceder o Paulo e outro preto, com a condição de ficar com a prata; eu ia dizer que não me convinha, mas o Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.
—Isso nunca! não faço esmolas! disse elle.
Jantámos tristes. Meu tio conego appareceu á sobremeza, e ainda presenciou uma pequena altercação.
—Meus filhos, disse elle, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.